inquieto-me.
meço o quadriculado das aberturas o perímetro do crâneo
onde passam a par têmporas e orelhas
passam mãos omoplatas ancas e por último pés
inquieto-me
tu já te encontras do lado de lá.

4.5.08
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8:30 p.m.
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23.4.08
20.4.08

(tinta-da-china sobre papel, 1990)
encontro-te por vezes nesse lugar ermo
de silêncios impuros e crepúsculos indolentes
que atravesso tão depressa quanto uma bátega de abril tão depressa
que o teu olhar quase não reconhece a intranquilidade que me assola
enquanto descem persianas correm estores e baixam pálpebras
do outro lado da rua ao entardecer.
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10:35 p.m.
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13.4.08

da minha janela para a tua
há um veio de luz reflectido pelas águas inquietas do Tejo
entre parapeitos
um abismo onde as copas dos plátanos e dos choupos escondem
pracetas calcetadas florescem tílias azuis jacarandás
velhos sentados em bancos de madeira cruzam as mãos no regaço
olham devagar o cintilar da luz solar que atravessa as sombras
quando a brisa sopra riem como os rapazinhos que desenham círculos
enquanto os pneus das bicicletas chiam no alcatrão e adolescentes falam
tão alto para os telemóveis
da minha janela para a tua
há uma vaga de pólen que tudo embriaga mesmo quando chove
e às copas das árvores somam-se os guarda-chuvas abertos
vejo-os rodopiantes riscando percursos nesse sopro de luz
que são os cabelos húmidos das raparigas tagarelando no regresso a casa
ouvem-se os passos dos homens e das mulheres
percebe-se quando levam uma criança pelas mãos também cintilam
mesmo quando são escuros e distantes os olhares
e se embaciam as vidraças que resguardam
os rostos de quem apenas contempla
uma rapariguinha aprende a coser botões
da minha janela para a tua
a cidade repete-se intemporal
o ar traz o sal liberto pelas vagas que embateram na costa
da minha janela para a tua entre parapeitos entre mãos
vai o olhar de um rapaz intranquilo que faz soar a guitarra eléctrica
propagam-se os sons que abalam a caixa toráxica da cidade dormente
embatem no diafragma das sombras que celebram o anoitecer
e fico arfante
sou o torso pálido de uma gárgula debruçada sobre a rua onde passas
o teu desejo é um veio de luz reflectido pelas águas inquietas do rio.
© filipe paes, 2008
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9:07 p.m.
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vazam-se olhares de cinzas
o peito que se arrebata do plano fantasmagórico de todas as ausências
vazam-se as mãos umas das outras aguardam-se tempestades
e enquanto se vazam desesperos
a pele seca
engelha-se
a ossatura dissolve-se
o olhar silencia-se
.
(lápis sobre papel, abril 2008)
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11:21 a.m.
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12.4.08
dia 18 de abril, pelas 21h
apresentação por Nuno Júdice
é possível encomendá-la escrevendo para revista.criatura@gmail.com
lista das livrarias onde a revista já está à venda:
Lisboa
Alexandria (Bairro Alto)
Apolo Lda (C. C. Apolo)
Assírio & Alvim (R. Passos Manuel)
Barata (Av. Roma)
Book House (Saldanha)
Buchholz (R. Duque de Palmela)
Bulhosa (Entre Campos)
Bulhosa (Galerias Twin Towers)
Editorial Escola (Caleidoscópio, Jardim do Campo Grande)
Letra Livre (Calçada do Combro)
Ler Devagar (Bairro Alto)
Multinova (Av. St Joana Princ)
O PaçoPó dos Livros (Av. Marquês de Tomar)
Portugal (Chiado)
Sá da Costa (Chiado)
Trama (R. São Filipe Nery)
Porto
Maria vai com as outras (Rua do Almada)
Poetria (C. C. Galerias Lumière)
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7:00 a.m.
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6.4.08
sigo por rio de couros a sombra acre dos muros cegos
sinto-a sobre a pele enquanto seguras as minhas mãos
sigo por rio de couros proibido
logo ali do outro lado da alameda
logo atrás da casa da professora da modista
dos vestidos de seda grossa das saias de mousselina
pacientemente cosidas no sobrado estreito
dois por piso ao longo de quatro patamares
(mas não é dela que quero falar)
é de rio de couros ali logo atrás da linha do casario
cosido à alameda que o ditador rasgou no burgo
(mas também não é desta que agora quero falar)
para trás o saibro vermelho as fontes o coreto
desço a rio de couros por ruas estreitas onde já ninguém passa
sigo a sombra acre dos muros cegos
neles estão ancorados os arcaboiços vazios do curtume
neles imagino naves barcas aeroplanos
enquanto os teus dedos tacteiam os meus pulsos
tomam os meus antebraços
tão devagar
cai sobre a pele a luz entrecortada pela fasquia de madeira
entrecortada pelos teus dedos que quase tocam o rubor das minhas faces
ali onde não há rosas-da-china nem pomares
onde a seiva do sumagre não serviu para fazer laca-do-japão.
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8:41 p.m.
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2.4.08
30.3.08
28.3.08
26.3.08


O primeiro número da revista literária Criatura já está impresso.
Participam no primeiro número os seguintes autores:
Ana Aleixo Lopes
Ana M. P. Antunes
António Ramos Pereira
Beatriz Hierro Lopes
Cláudia Santos Silva
David Teles Pereira
Diogo Vaz Pinto
José Carlos Barros
Maria Sousa
Marta Caldeira
Marta Chaves
Nuno Araújo
Rita Branco Jardim
Sara F. Costa
Susana Almeida
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10:46 p.m.
25.3.08

© zp
quando chego à paliçada que te encerra
e cais como quem apenas respira
sobre a nuca sobre a curva do ombro
sobre a areia branca que cega e enfarta
sem que saibas de maçaneta portada ou vidraça
sem que te reconheças na membrana fotográfica que o dia imprime
e és contraluz vagalume corpo nocturno.
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6:54 a.m.
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17.3.08
12.3.08
chegas trazendo a morte como uma criança pela mão
atravessas os juncos enlameados pisas as gramíneas
arrumas no bolso o coração abalado sacodes o vestido branco de lã
abres o caderno vermelho e escreves o teu nome
escreves
pétala pedúnculo gineceu.
a morte ficou parada com os seus grandes olhos fitos
nas poeiras cansadas do Levante
escuta palavras omissas vozes falsas
no peito traz a planta vascular com sementes de cal
a braçada de magnólias de onde colhes o meu nome
de manhã caiem sombras, muito devagar
disse. caiem com as pétalas negras das camélias
definham com o perfume das tangerinas.
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11:09 p.m.
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10.3.08
o que lerei esta noite para saber da tua voz
contos pântanos brisas comboios desertos
um arrepio uma funda um assobio
o que lerei que palavras soletrarei como reter o tempo
sequóias desfiladeiros fragas
lágrimas um rubor vagas
que mãos tomarão as faces os cabelos
que bocas cegas se tactearão
a cintura o torso as omoplatas os cotovelos
os pulsos abertos o sexo as nádegas
o que lerei esta noite
um arrepio uma funda um assobio.
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11:59 p.m.
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7.3.08

© maria paes
pareces mesmo tu, aí, como te imagino. quase tronco, galho, folhagem.
o corpo ancorado de manhã
no flanco de um fotograma inesperado
l’air d’une chanson perdue.
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7:05 a.m.
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4.3.08
3.3.08
no sábado vi o documentário na televisão
o rosto dos soldados que interrogaram homens
no Iraque no Afeganistão
o ar crispado de quem não era suposto ser julgado
e passar uns tempos encarcerado
olhei o Mal o cinismo a ignorância a ignomínia as botas cardadas
a pele exposta sem outro camuflado que não o do medo
as discussões abstractas infames dos generais dos secretários de estado
o gozo primário dos raciocínios do presidente os esgares
aprendi sobre a humanidade de dormir quatro horas ou apenas duas
preso pelos pulsos ser espancado até ao homicídio à exaustão
perguntei-me se dessa morte lenta já terão padecido em número suficiente
olho por olho dente por dente mortos para saciar os profetas do medo
as vozes do apocalise os senhores de todas as guerras
os que hesitaram na resposta à pergunta se seria legítimo
pontapear os testículos do filho de um homem
a quen se quer extorquir uma qualquer informação
será que já são tantos quantos os que arderam nas torres gémeas
tantos quantos os que morrem pelas ruas de Bagdad
tantos quantos os rockets sobre as praias de Israel e de Gaza
será que já chegam será que não
será que serei capaz de me levantar da náusea que me asfixia
lavar-me do nojo
será que serei capaz de descobrir a cara
de remover este véu de vergonha
será que não.
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7:00 a.m.
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2.3.08
24.2.08
à noite caminho a teu lado na Junqueira em julho
crescem sombras nos muros nas plantas inquietas
mordidas pelos ventos que atravessaram o deserto
agitadas pela ânsia dos pássaros dos gafanhotos
pelo perfume de hibiscus tamareiras buganvílias
crescem sombras nos meus degredos nocturnos
reconstroem o cavername que ciclicamente me asfixia.
é quando lanço mão do teu olhar que de repente nos assemelhamos
a uma rocha à deriva uma baía ali mesmo antes do Tejo
ali perturbada pelo cheiro a maresia
os sentidos eriçados quando saímos do arco de luz dos candeeiros
e embatemos contra todas as sombras e a tua boca roça na minha
a tua boca beija a minha.
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8:20 p.m.
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22.2.08
19.2.08
Suspenso7.jpg)
© zp
intertexto
há muito que deixaram de gostar de ti por razões obscuras
e se a vida continua a piorar dir-te-ão o contrário
fazem jogging cardio-fitness depilação
têm a barba aparentemente displicentemente aparada
o palavreado seco a voz tecnocrata bem colocada sem pigarro
são deus e o homem fazem projectos emitem opiniões
decisões sobre os mais convenientes pareceres técnicos
pensam na casa na rapariga top model no tablóide
no carro desportivo na nação tão humanos tão banais vestem fato-de-treino
fato-armani-rosa-e-teixeira blusão-de-camurça sapato-de-vela
workaholics e puritanos não fumam viverão para sempre
jantam com banqueiros magnatas especialistas e socialites
compram acções e se a vida continua a piorar
enquanto não sabes o que fazer com o salário mínimo com o seguro
com o crédito para o fogão para a televisão para os livros escolares
enfurecer-se-ão por não estares humildemente agradecido
pelas estradas leis planos de ordenamento investimentos gestão transparente
pela avaliação do vizinho do colega do chefe da mulher-a-dias do cão
pela internet e os estádios a culpa será dos ministros dos autarcas dos jornalistas
do povo infecto improdutivo dos corruptos será também tua
que não saberás ser boy subserviente diligente bem-falante
e disputas os leitos de cheia para a tua mísera vida
olha os móveis os bibelots as colchas almofadadas
os frigoríficos os televisores que a lama emporcalhou
para os quais é necessário disponibilizar share mediático
encontrar palavras de piedade e comiseração
há muito que deixaram de gostar de ti por razões obscuras
sabem que ninguém se lembra das cheias nos anos oitenta
nos anos sessenta em 2008 já nem se lembram das de 2001
evidenciarão a diminuição do número de mortos um progresso
que no tempo da outra senhora era tudo tão mais fácil
não havia o culto da miséria nos talkshow da televisão
ainda assim cansar-se-ão depressa esquecerão
que escorrem 35 litros de água por metro quadrado
na direcção da ribeira do prior velho, da ribeira de alcântara, do rio trancão
há muito que deixaram de gostar de ti por razões obscuras.
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8:15 p.m.
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17.2.08
camélia
(flores no quintal quando está frio e húmido)
(ser)
livre
(o exercício diário)
som
(da voz, das palavras, dos afagos, dos beijos, da música, do vento, das vagas no mar, dos passos na calçada, da caruma a estalar)
solar
(o estado de espírito)
negro
(o outro estado)
filhos
(os meus, os meus)
pele
(onde reverbera o desejo)
lugar
(a cidade, a casa, o quintal, o penedo, a sombra da árvore, o areal, os braços dos meus amores)
livro
(o outro lugar. o sonho, o poema, a descoberta, o desejo, o reencontro, a biblioteca, a livraria, o cheiro da casa onde já não vivo)
canela
(o perfume, a comida, o oriente, as caravelas, um dia de festa)
tela
(a do cinema, a da pintura, a do tambor)
luz
(a que me permite olhar os teus olhos, a que traz a noite quando se vai)
para o jpt e o jpn.
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10:58 p.m.
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13.2.08

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7:01 a.m.
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11.2.08
9.2.08
passam os dias passam devagar secos como o pólen que o vento primaveril
veio depositar nos passeios nos terraços no alcatrão
passam os automóveis de janelas abertas
e raparigas de vestidos curtos sem mangas
mulheres-a-dias penduram cobertores húmidos nos estendais
arejam a sala o quarto a arrecadação
passam as mãos nos cabelos limpam o suor desfasado no tempo
passam as mãos passam o ventre no comboio apinhado ajeitam a carteira
passam a ferro travesseiros colchas e lençóis
ajeitam as crianças que a patroa não tem tempo de levar à escola
passam horas minutos palavras apagadas pela poeira que assombra o inverno
o vazio alastra logo acima do diafragma comprimindo os pulmões
as costelas o coração
passam os dias passam secos como o saibro da alameda do jardim botânico
secos como a sombra da fraga onde crescem o tomilho e a hortelã
a que cheiram as raparigas quando cheiram como botões de magnólia
têm a pele suave das camélias e os rapazes demoram o olhar nas suas bocas
ao entardecer sonham com um violino com violetas ouvem acórdeão e sanfonas
ao entardecer lagartas licranços centopeias ratos escaravelhos lesmas
térmitas e lacraus proliferam na terra temperada por uma falsa estação.


© cj
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11:36 p.m.
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31.1.08

© margarete
na entrada do quarto encontro troncos de árvores que
como vasos sanguíneos atravessam o chão que me ampara
e o tecto que me cobre enquanto afasto do meu olhar folhagens imaginárias.
quando chegar o último sono de inverno
por entre as sombras da mata e o voo dos corvos
quero sentir os teus joelhos dobrarem as minhas pernas
enquanto me abraças os ombros a partir dos cotovelos desarmados
inclinar o rosto sobre o teu peito e sentir as tuas mãos recolherem
da minha face a caligrafia dos terrores diurnos
e sentir na pele a luz a terra húmida e perfumada.
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7:00 a.m.
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23.1.08
21.1.08
hoje, para R.

sabes rosa, tu que o és apenas no meu peito
rosa do leste maria do rosário
rosa só para mim
digo-o quando me sento no quarto onde adormeço
e chove como só no Porto se te ausentas
nesse quarto onde desenho e pinto
onde crescem dunas de areia no tabuado se voltar a Espinho
onde cheira a grafite a têmpera a cordas
às grades de madeira construídas nas oficinas do jardim
tu que és rosa da china rosa das sombras
cresces no meu corpo como um líquene
ao som da new wave
longo perdura o nosso amor assim
© pedro morais
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7:46 p.m.
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18.1.08

quando te encontro assim de repente quando não me olhas
olhando-me nas palavras de outrém
quando estás aí do outro lado não estando
quando és o lótus a cal
seis graus de adobe o mar.
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11:55 p.m.
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17.1.08
contra a lapidação "El artículo 104 del Código Penal iraní describe que la pena con la que se castigará el "delito" del adulterio será la lapidación. Para ello se usarán piedras "no tan grandes como para matar a la persona de uno o dos golpes, ni tan pequeñas como para no poder considerarlas piedras". En el artículo 102 se detalla que para ejecutar este castigo, en el caso de un hombre, se le enterrará en el suelo hasta la cintura, y en el caso de las mujeres, hasta el pecho. Amnistía Internacional lanza hoy el informe contra la lapidación en Irán, mientras, al menos 11 personas, están condenadas."

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7:48 p.m.
16.1.08
escrevo agora enquanto as nuvens são tomadas pela luz do meio-dia
busco palavras no peito procuro as folhas que te cobriram nos passeios
entretanto levadas pelas mulheres da limpeza
classificadas pelo burocrático amanuense
pisadas pelos estudantes pelos cães por todos os vadios incineradas
expurgadas pelos homens de sobretudo escuro que fazem sérias assembleias
homens grisalhos tão garbosos na sua meia-idade
acompanhados de mulheres tão elegantemente vestidas de fazendas masculinas
italianas por certo os sapatos também
decoradas por ouro coral pérolas
pelo rubor de uma pele esticada durante horas de ginásio
tão bem que me toma alguma inveja de secretaria
tanta que sinto as penas dos corvos crescerem pelos antebraços
rompendo a derme e a epiderme
enquanto cresce o nariz adunco qual bico necrófago
a voz articula silvos arqueia-se-me a coluna
perco o ar.
fujo.
passam dois anos enquanto escrevo engordo envelheço sorrio
desenho as nuvens tomadas pela luz do meio-dia
busco palavras procuro as folhas que te cobriram nos passeios
antes que seja tarde tarde
antes que morra o meu coração
nesse espaço de artérias entupidas.
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12:35 p.m.
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13.1.08

parto reservando um lugar no contra-sentido para melhor me poder afastar
enquanto a locomotiva curva no dorso das colinas preguiçosa
rindo-se dos campos de nabos e couves, dos salgueiros desfolhados
das azinheiras e dos loureiros, das aldeias desmembradas
e vão parece o meu corpo, vão parece o pensamento
enquanto me aguardam as ruas vazias da cidade
é sábado à tarde quando há bandos de pássaros no choupal
e o burgo regurgita de vida nos centros comerciais
a minha face irregular está cansada
tomba a cal das argamassas que alguém recobriu de cores plásticas e opacas
impermeáveis ficaram as casas arfantes os velhos
sentados nos umbrais de cimento a fingir pedra cansada
cansada a cidade que se reconstrói fingindo ser o que já não é
e busca recobro nos planos envidraçados dos pontos de encontro de fast-food
onde a luz do sol é filtrada o ar que se respira condicionado a chuva não entra
e bandos de pardais desgarrados se empanturram de restos de pão e de gordura
onde já nem se fuma onde se fala e cala e de novo se fala
ao telemóvel ao ouvido das crianças mordiscando a orelha dos namorados
gritando aos mais surdos
enquanto uns se enlaçam outros se encontram e uns outros se afastam
eu assim me afasto em silêncio
subo a calçada de seixos rolados colhidos no rio
quando havia um areal, laranjais perfumados e um cais de madeira
regresso no contra-sentido
vão parece o meu olhar.
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10:00 p.m.
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11.1.08
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1:33 p.m.
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10.1.08


© andré bonirre
filmes no sótão 2007
(ou os belos presentes que recebi por estes dias)
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11:00 p.m.
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9.1.08
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6:50 a.m.
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8.1.08

© pedro morais
sombra no deserto
(ou os belos presentes que recebi por estes dias)
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7:00 p.m.
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6.1.08
vela uma penumbra de giz
embacia o corpo das palavras
o pulso que não se sente
o olhar de cinzas a pele que só arrancada.
ao amanhecer terás os passeios cobertos de gelo
prematuros bandos de pássaros sobrevoarão os jacarandás
os plátanos
encontrar-te-ão adormecido coberto de folhas
e nuas estarão as sacadas da praça
vagas as janelas de lioz macio
como a pele dos rapazes os lábios das raparigas
vazas estarão as marés o cais o tejo
vaza a luz ao relento
quando passares em silêncio.
© kiasma
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8:58 p.m.
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3.1.08
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11:00 p.m.
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