6.4.08

sigo por rio de couros a sombra acre dos muros cegos
sinto-a sobre a pele enquanto seguras as minhas mãos
sigo por rio de couros proibido
logo ali do outro lado da alameda
logo atrás da casa da professora da modista
dos vestidos de seda grossa das saias de mousselina
pacientemente cosidas no sobrado estreito
dois por piso ao longo de quatro patamares

(mas não é dela que quero falar)

é de rio de couros ali logo atrás da linha do casario
cosido à alameda que o ditador rasgou no burgo


(mas também não é desta que agora quero falar)

para trás o saibro vermelho as fontes o coreto
desço a rio de couros por ruas estreitas onde já ninguém passa
sigo a sombra acre dos muros cegos
neles estão ancorados os arcaboiços vazios do curtume
neles imagino naves barcas aeroplanos
enquanto os teus dedos tacteiam os meus pulsos
tomam os meus antebraços
tão devagar

cai
sobre a pele a luz entrecortada pela fasquia de madeira
entrecortada pelos teus dedos que quase tocam o rubor das minhas faces
ali onde não há rosas-da-china nem pomares
onde a seiva do sumagre não serviu para fazer laca-do-japão.

12 comentários:

Vanda disse...

Numa manhã de vento, interrompeu-se o trovão para te ler.


Poéticamente e em quietude.


Na docilidade das musselinas.


Gostei. Muito :)

laura disse...

e cai sobre mim uma doce nostalgia de flores e perfumes...

Night Shadow disse...

não há sombras na neblina do amanhecer, enquanto atravessamos ruas estreitas, tão devagar.

CNS disse...

Semicerro os olhos à luz. Que escorre no teu poema.

hfm disse...

Da sombra das palavras na constante interrogação.

Baudolino disse...

sinto, sempre que aqui retorno, não encontro palavras para comentar o que quer que seja e não vou perder esta oportunidade de ficar calado.
abraço
p.

isabel mendes ferreira disse...

boa noite.~


rosa da china. no silêncio do piano.

:)

beijo.

Huckleberry Friend disse...

Contagiante este rio...

MADRUGADA... disse...

Excelente texto!

(*)

Anónimo disse...

Caudia,minha querida aluna,ontem menina de cristal-não me perguntes a razão,mas na minha memória tu és de cristal-,hoje Mãe,esposa,arquitecta e,para meu grande espanto,descubro que és tb uma poeta . Aí deixaste-me perfeitamente de rastos,pq a minha reacção ,ao ler os teus textos,foi apenas esta:eu nunca mais escrevo uma linha,sinto-me tão pequenina ao lado da Claudia que não me atreverei a mandar-lhe nem um bilhete . Porém,tornei-me mais humilde e ouso vir dizer-te PARABÉNS,continua,mas não guardes só para alguns os teus talentos. Dá-te a conhecer,escreve,publica,divide connosco as coisas lindas que fazes.
Obrigada por me teres proporcionada estes momentos de prazer.
Um beijinho grande
Salette

blue disse...

minha querida Professora de Francês.

um bocado de mim existe também por sua causa, por causa do mundo que era possível descobrir e imaginar nas suas palavras, na dedicação e afecto que nos reservava, enquanto seus alunos.

pequenina serei eu, sempre, perante tudo o que me ensinou, Professora.

muito obrigada, fico feliz por a reencontrar aqui.

(e nunca deixe de escrever e de ser quem é, nunca!)

Anónimo disse...

E ainda dizem que a Escola "está de
rastos" ! Com mestres e alunos assim,,,não, não acredito.
F.G.

Arquivo do blogue

 
Creative Commons License
This work is licensed under a Creative Commons Attribution-Noncommercial-No Derivative Works 2.5 Portugal License.