9.2.08

passam os dias passam devagar secos como o pólen que o vento primaveril
veio depositar nos passeios nos terraços no alcatrão
passam os automóveis de janelas abertas
e raparigas de vestidos curtos sem mangas

mulheres-a-dias penduram cobertores húmidos nos estendais
arejam a sala o quarto a arrecadação
passam as mãos nos cabelos limpam o suor desfasado no tempo
passam as mãos passam o ventre no comboio apinhado ajeitam a carteira
passam a ferro travesseiros colchas e lençóis
ajeitam as crianças que a patroa não tem tempo de levar à escola
passam horas minutos palavras apagadas pela poeira que assombra o inverno
o vazio alastra logo acima do diafragma comprimindo os pulmões
as costelas o coração

passam os dias passam secos como o saibro da alameda do jardim botânico
secos como a sombra da fraga onde crescem o tomilho e a hortelã
a que cheiram as raparigas quando cheiram como botões de magnólia
têm a pele suave das camélias e os rapazes demoram o olhar nas suas bocas
ao entardecer sonham com um violino com violetas ouvem acórdeão e sanfonas

ao entardecer lagartas licranços centopeias ratos escaravelhos lesmas
térmitas e lacraus proliferam na terra temperada por uma falsa estação.





© cj

7 comentários:

Scarlata disse...

Que doce acordar com a tua pesia blue... que dom que tu tens. ;D

isabel mendes ferreira disse...

os dias contigo Blue sabem.me sempre a "melhor".


há em ti o talento subtil do que é raro.
intenso.
e permanente.

e "permanento-me". por aqui.


bom domingo...oh inspirada Blueíssima.

Bandida disse...

recortes do cheiro a musgo.

Natália Nunes disse...

Gostei muito da cadência do texto...

Beijos.

menina limão disse...

engraçado, conheci ontem essas fotos, adorei-as.


gostei muito do imaginário do poema, criaste uma imagem muito forte, principalmente aqui:

"passam os dias passam secos como o saibro da alameda do jardim botânico
secos como a sombra da fraga onde crescem o tomilho e a hortelã
a que cheiram as raparigas quando cheiram como botões de magnólia
têm a pele suave das camélias e os rapazes demoram o olhar nas suas bocas
ao entardecer sonham com um violino com violetas ouvem acórdeão e sanfonas"

(acordeão e sanfonas! bailava agora...)

isabel victor disse...

Talento ...

Blue

(sempre por aqui)

iv*

Luis Eme disse...

Que dias lindos...

quase sem estação, mas com sol, quanto baste...

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