15.6.08



(lápis sobre papel, detalhes)

10.6.08

sabes quando me sento e tu não me olhas quando me desalinho
calço sandálias negras depois de polida a pele
empoeiradas as maçãs do rosto desenhados os lábios de carmim
sabes poderia ser um arrufo um arremedo inútl
mas é apenas um recuo ergo-me como se não carregasse outro peso
que o da minha vontade que outro peso não é
o de um lugar ermo onde às vezes as tuas mãos me resgatam
quando me enlaças
um olhar semicerrado como se fora um dia de verão
na falésia onde o vento nos empurra um contra o outro
e é inevitável que me beijes
a pele seca dos dedos dos lábios das pálpebras
às vezes um dia de verão um desalinho.



5.6.08

dia 7 de Junho de 2008


apresentação de
ISABEL LOPES DELGADO
.
músicos convidados
Xavier Llonch
João Vaz Pinto

31.5.08



(25 Abril 2008)

a caminho de Favaios

28.5.08

espectáculos extra a 2 e 3 de junho!





CRÓNICA FEMININA



um espectáculo de PALAVRAS LOUCAS ORELHAS MOUCAS
texto e encenação de Laura Ferreira

com Nanci Sousa, Gisela Baltazar, Joana Melo Costa
Laura Ferreira e Rosário Nascimento

de 26 a 31 de Maio, às 21h45
no ESTÚDIO ZERO
rua do Heroísmo, nº 86, Porto
reservas pelos 96 29 65 763 / 91 92 59 935

25.5.08

e se me quiseres escrever saberás o meu paradeiro?

não posso esperar para te dizer que alcatroaram a rua encanaram a água da rega
desfiguraram a igreja caiu a árvore no pátio do colégio a faia no casal do paço
o reboco resiste aos sais na maior parte da fachada
embora se esboroe junto da janela do quarto
na padaria já não se coze pão
reconhecer-me-ias agora que manchas solares tomam a minha pele
queria pensar nelas como plantas que se enraizaram na derme
mas sei que são apenas sombras-radicais-livres
não sei se gosto desta palavra
também não gosto do corrector da aplicação informática
não reconhece outras palavras desorienta-se
e sem querer escrevo o que não pensara

em inglês ou espanhol hesito nas palavras que me contrapõe
desoriento-me
mas que importa houve um terramoto na China tempestades na Birmânia
não há liberdade que lhes valha palavras que os amparem
nem blasfémias que nos salvem aqui chove apenas
todos se lamuriam como sempre se lamuriaram
nestes pequenos desgostos na nacional mesquinhez

não saberás por isso o meu paradeiro
agora que fumam vides e oliveiras na fogueira que me aquece quartos e salas
o castanheiro ensombra o quintal que a grama invade
demoliram a casa dos vizinhos e constroem uma outra portuguesa-com-certeza
grosseira como o técnico licenciado por universidade vetusta
assim subscreveu o risco que a suporta
responsabilizando-se perante o órgão eleito por voto universal
não há blasfémias que nos condenem palavras que nos salvem

aos poucos cerca-me a vida tal como ela é

e sei melhor quem sempre fomos
ainda que esteja certa de que não saberás o meu paradeiro
não faço plásticas não injecto toxina botulínica do tipo A não me escondo
estou na primeira linha de fogo.

21.5.08

quantas vezes em maio a secura trouxe o travo dos incêndios no estio
na tua boca quantas vezes o silêncio
das tuas mãos embaraçadas na minha cintura.


(maio 2008)

20.5.08

SAYED

ler mais, aqui.

18.5.08


© maria paes

pelo carreiro fora a mulher entrança ramagens de vinca florida

que uma criança coloca no colo sobre os cabelos

levam o almoço aos jornaleiros que andam à batata

passam sob oliveiras e azinheiras em flor por campos de favas

a mão da mulher aponta as violetas as ervilhas-de-cheiro

os bichos-da-conta tufos de pão-e-queijo por entre as pedras dos muros

prímulas perfumadas que colhem na volta da tarde

primaveras.


ao revê-las assim não me pesam tanto as sombras

aquelas que estão no fundo do colo junto ao esterno

as que são a razão para a flecha do diafragma sobre o ventre

as que me arqueiam a coluna e deformam as palavras.

15.5.08

hoje, para a Rosa.

© pedro morais





nesta revista participam, entre outros:

André Lemos
Diniz Conefrey
Filipe Abranches
José Abrantes
José Carlos Fernandes
Pedro Leitão
Pedro Morais / Cláudia Santos Silva
Pedro Nora / Jessica Khane
Roberto Gomes / José Carlos Fernandes
Susa Monteiro

11.5.08

acorda
já te desconheço
vê as mãos que não cabem nos bolsos
os tornozelos que rompem meias os cotovelos encaixados na cintura
o amplexo dos braços maior que o diafragma maior do que um beijo
o pescoço erguido como o caule dos lírios
acorda
tens os pés fora dos lençóis a respiração breve
as palmas das mãos abertas como cartas
e sou eu quem já te desconhece
tão distante do pedregal coberto de tojo e de giesta
das pedras lisas onde imaginas o curso de todos os outros caminhos
acorda

caiem ramagens de vinca aguaceiros flores de relento
eu também caio não quero amparo

acorda.

5.5.08

hoje, para C.


(tinta-da-china sobre papel, maio 2008)
menina-limão



assinar a petição

e ler aqui

4.5.08



inquieto-me.
meço o quadriculado das aberturas o perímetro do crâneo
onde passam a par têmporas e orelhas
passam mãos omoplatas ancas e por último pés
inquieto-me

tu já te encontras do lado de lá.



23.4.08


(caneta sobre papel, março 2008)

20.4.08


(tinta-da-china sobre papel, 1990)

encontro-te por vezes nesse lugar ermo
de silêncios impuros e crepúsculos indolentes
que atravesso tão depressa quanto uma bátega de abril tão depressa
que o teu olhar quase não reconhece a intranquilidade que me assola
enquanto descem persianas correm estores e baixam pálpebras

do outro lado da rua ao entardecer.

13.4.08



da minha janela para a tua

há um veio de luz reflectido pelas águas inquietas do Tejo

entre parapeitos
um abismo onde as copas dos plátanos e dos choupos escondem
pracetas calcetadas florescem tílias azuis jacarandás
velhos sentados em bancos de madeira cruzam as mãos no regaço
olham devagar o cintilar da luz solar que atravessa as sombras
quando a brisa sopra riem como os rapazinhos que desenham círculos
enquanto os pneus das bicicletas chiam no alcatrão e adolescentes falam
tão alto para os telemóveis

da minha janela para a tua
há uma vaga de pólen que tudo embriaga mesmo quando chove
e às copas das árvores somam-se os guarda-chuvas abertos
vejo-os rodopiantes riscando percursos nesse sopro de luz
que são os cabelos húmidos das raparigas tagarelando no regresso a casa
ouvem-se os passos dos homens e das mulheres
percebe-se quando levam uma criança pelas mãos também cintilam
mesmo quando são escuros e distantes os olhares
e se embaciam as vidraças que resguardam
os rostos de quem apenas contempla
uma rapariguinha aprende a coser botões

da minha janela para a tua
a cidade repete-se intemporal
o ar traz o sal liberto pelas vagas que embateram na costa
da minha janela para a tua entre parapeitos entre mãos
vai o olhar de um rapaz intranquilo que faz soar a guitarra eléctrica
propagam-se os sons que abalam a caixa toráxica da cidade dormente
embatem no diafragma das sombras que celebram o anoitecer

e fico arfante
sou o torso pálido de uma gárgula debruçada sobre a rua onde passas
o teu desejo é um veio de luz reflectido pelas águas inquietas do rio.



© filipe paes, 2008

vazam-se olhares de cinzas
o peito que se arrebata do plano fantasmagórico de todas as ausências
vazam-se as mãos umas das outras aguardam-se tempestades
e enquanto se vazam desesperos
a pele seca
engelha-se

a ossatura dissolve-se
o olhar silencia-se

.

(lápis sobre papel, abril 2008)

12.4.08

dia 18 de abril, pelas 21h

apresentação por Nuno Júdice


é possível encomendá-la escrevendo para revista.criatura@gmail.com
lista das livrarias onde a revista já está à venda:

Lisboa
Alexandria (Bairro Alto)
Apolo Lda (C. C. Apolo)
Assírio & Alvim (R. Passos Manuel)
Barata (Av. Roma)
Book House (Saldanha)
Buchholz (R. Duque de Palmela)
Bulhosa (Entre Campos)
Bulhosa (Galerias Twin Towers)
Editorial Escola (Caleidoscópio, Jardim do Campo Grande)
Letra Livre (Calçada do Combro)
Ler Devagar (Bairro Alto)
Multinova (Av. St Joana Princ)
O PaçoPó dos Livros (Av. Marquês de Tomar)
Portugal (Chiado)
Sá da Costa (Chiado)
Trama (R. São Filipe Nery)

Porto
Maria vai com as outras (Rua do Almada)
Poetria (C. C. Galerias Lumière)

6.4.08

sigo por rio de couros a sombra acre dos muros cegos
sinto-a sobre a pele enquanto seguras as minhas mãos
sigo por rio de couros proibido
logo ali do outro lado da alameda
logo atrás da casa da professora da modista
dos vestidos de seda grossa das saias de mousselina
pacientemente cosidas no sobrado estreito
dois por piso ao longo de quatro patamares

(mas não é dela que quero falar)

é de rio de couros ali logo atrás da linha do casario
cosido à alameda que o ditador rasgou no burgo


(mas também não é desta que agora quero falar)

para trás o saibro vermelho as fontes o coreto
desço a rio de couros por ruas estreitas onde já ninguém passa
sigo a sombra acre dos muros cegos
neles estão ancorados os arcaboiços vazios do curtume
neles imagino naves barcas aeroplanos
enquanto os teus dedos tacteiam os meus pulsos
tomam os meus antebraços
tão devagar

cai
sobre a pele a luz entrecortada pela fasquia de madeira
entrecortada pelos teus dedos que quase tocam o rubor das minhas faces
ali onde não há rosas-da-china nem pomares
onde a seiva do sumagre não serviu para fazer laca-do-japão.

2.4.08

30.3.08



28.3.08

hoje, para Z.

26.3.08




O primeiro número da revista
literária Criatura já está impresso.


Participam no primeiro número os seguintes autores:

Ana Aleixo Lopes
Ana M. P. Antunes
António Ramos Pereira
Beatriz Hierro Lopes
Cláudia Santos Silva
David Teles Pereira
Diogo Vaz Pinto
José Carlos Barros
Maria Sousa
Marta Caldeira
Marta Chaves
Nuno Araújo
Rita Branco Jardim
Sara F. Costa
Susana Almeida

25.3.08


© zp


nem a sombra nem o vento me servem de anteparo

quando chego à paliçada que te encerra

e cais como quem apenas respira

sobre a nuca sobre a curva do ombro

sobre a areia branca que cega e enfarta

sem que saibas de maçaneta portada ou vidraça

sem que te reconheças na membrana fotográfica que o dia imprime

e és contraluz vagalume corpo nocturno.
..

17.3.08



(caneta de micropigmento sobre papel, 2007)

12.3.08

chegas trazendo a morte como uma criança pela mão
atravessas os juncos enlameados pisas as gramíneas
arrumas no bolso o coração abalado sacodes o vestido branco de lã
abres o caderno vermelho e escreves o teu nome
escreves
pétala pedúnculo gineceu.
a morte ficou parada com os seus grandes olhos fitos
nas poeiras cansadas do Levante
escuta palavras omissas vozes falsas
no peito traz a planta vascular com sementes de cal
a braçada de magnólias de onde colhes o meu nome

de manhã caiem sombras, muito devagar
disse. caiem com as pétalas negras das camélias
definham com o perfume das tangerinas.


© salamandrine aka sandra ferrás

.
silêncio.

10.3.08

o que lerei esta noite para saber da tua voz
contos pântanos brisas comboios desertos
um arrepio uma funda um assobio
o que lerei que palavras soletrarei como reter o tempo
sequóias desfiladeiros fragas
lágrimas um rubor vagas
que mãos tomarão as faces os cabelos
que bocas cegas se tactearão
a cintura o torso as omoplatas os cotovelos
os pulsos abertos o sexo as nádegas

o que lerei esta noite
um arrepio uma funda um assobio.


.

7.3.08


© maria paes



pareces mesmo tu, aí, como te imagino. quase tronco, galho, folhagem.
o corpo ancorado de manhã
no flanco de um fotograma inesperado

l’air d’une chanson perdue.

4.3.08


(caneta sobre papel, detalhe)

3.3.08

no sábado vi o documentário na televisão
o rosto dos soldados que interrogaram homens
no Iraque no Afeganistão
o ar crispado de quem não era suposto ser julgado
e passar uns tempos encarcerado
olhei o Mal o cinismo a ignorância a ignomínia as botas cardadas
a pele exposta sem outro camuflado que não o do medo
as discussões abstractas
infames dos generais dos secretários de estado
o gozo primário dos raciocínios do presidente os esgares
aprendi sobre a humanidade de dormir quatro horas ou apenas duas
preso pelos pulsos ser espancado até ao homicídio à exaustão
perguntei-me se dessa morte lenta já terão padecido em número suficiente
olho por olho dente por dente mortos para saciar os profetas do medo
as vozes do apocalise os senhores de todas as guerras
os que hesitaram na resposta à pergunta se seria legítimo
pontapear os testículos do filho de um homem
a quen se quer extorquir uma qualquer informação
será que já são tantos quantos os que arderam nas torres gémeas
tantos quantos os que morrem pelas ruas de Bagdad
tantos quantos os rockets sobre as praias de Israel e de Gaza

será que já chegam será que não
será que serei capaz de me levantar da náusea que me asfixia
lavar-me do nojo
será que serei capaz de descobrir a cara
de remover este véu de vergonha
será que não.

2.3.08


(caneta sobre papel)

jean cocteau

24.2.08

à noite caminho a teu lado na Junqueira em julho
crescem sombras nos muros nas plantas inquietas
mordidas pelos ventos que atravessaram o deserto
agitadas pela ânsia dos pássaros dos gafanhotos
pelo perfume de hibiscus tamareiras buganvílias
crescem sombras nos meus degredos nocturnos
reconstroem o cavername que ciclicamente me asfixia.

é quando lanço mão do teu olhar que de repente nos assemelhamos
a uma rocha à deriva uma baía ali mesmo antes do Tejo
ali perturbada pelo cheiro a maresia
os sentidos eriçados quando saímos do arco de luz dos candeeiros
e embatemos contra todas as sombras e a tua boca roça na minha
a tua boca beija a minha.

22.2.08



(caneta e lápis de cera sobre papel, 1984)

egon schiele

19.2.08


© zp

intertexto

há muito que deixaram de gostar de ti por razões obscuras

e se a vida continua a piorar dir-te-ão o contrário
fazem jogging cardio-fitness depilação
têm a barba aparentemente displicentemente aparada
o palavreado seco a voz tecnocrata bem colocada sem pigarro
são deus e o homem fazem projectos emitem opiniões
decisões sobre os mais convenientes pareceres técnicos
pensam na casa na rapariga top model no tablóide
no carro desportivo na nação tão humanos tão banais vestem fato-de-treino
fato-armani-rosa-e-teixeira blusão-de-camurça sapato-de-vela
workaholics e puritanos não fumam viverão para sempre
jantam com banqueiros magnatas especialistas e socialites
compram acções e se a vida continua a piorar
enquanto não sabes o que fazer com o salário mínimo com o seguro
com o crédito para o fogão para a televisão para os livros escolares
enfurecer-se-ão por não estares humildemente agradecido
pelas estradas leis planos de ordenamento investimentos gestão transparente
pela avaliação do vizinho do colega do chefe da mulher-a-dias do cão
pela internet e os estádios a culpa será dos ministros dos autarcas dos jornalistas
do povo infecto improdutivo dos corruptos será também tua
que não saberás ser boy subserviente diligente bem-falante
e disputas os leitos de cheia para a tua mísera vida
olha os móveis os bibelots as colchas almofadadas
os frigoríficos os televisores que a lama emporcalhou
para os quais é necessário disponibilizar share mediático
encontrar palavras de piedade e comiseração

há muito que deixaram de gostar de ti por razões obscuras
sabem que ninguém se lembra das cheias nos anos oitenta
nos anos sessenta em 2008 já nem se lembram das de 2001
evidenciarão a diminuição do número de mortos um progresso
que no tempo da outra senhora era tudo tão mais fácil
não havia o culto da miséria nos talkshow da televisão
ainda assim cansar-se-ão depressa esquecerão
que escorrem 35 litros de água por metro quadrado
na direcção da ribeira do prior velho, da ribeira de alcântara, do rio trancão

há muito que deixaram de gostar de ti por razões obscuras.

17.2.08



(caneta rotring sobre papel)

camélia
(flores no quintal quando está frio e húmido)

(ser)
livre
(o exercício diário)

som
(da voz, das palavras, dos afagos, dos beijos, da música, do vento, das vagas no mar, dos passos na calçada, da caruma a estalar)

solar
(o estado de espírito)

negro
(o outro estado)

filhos
(os meus, os meus)

pele
(onde reverbera o desejo)

lugar
(a cidade, a casa, o quintal, o penedo, a sombra da árvore, o areal, os braços dos meus amores)

livro
(o outro lugar. o sonho, o poema, a descoberta, o desejo, o reencontro, a biblioteca, a livraria, o cheiro da casa onde já não vivo)

canela
(o perfume, a comida, o oriente, as caravelas, um dia de festa)

tela
(a do cinema, a da pintura, a do tambor)

luz
(a que me permite olhar os teus olhos, a que traz a noite quando se vai)



para o jpt e o jpn.

13.2.08


cinco minutos na varanda do lugar comum

o café sobre a mesa o caderno vermelho que acompanha a agenda

e um contraluz matinal sobre a mata do jardim botânico o rio a serra

onde sopra o vento que cedo soprara na porta de casa.

a vista tem o rumor dos pólens das poeiras a surdez do tráfego matinal

veio no silvo da locomotiva por entre colinas nos braços dos afluentes

no abraço da criança ensonada nos belos rostos dos adolescentes

chegando ao areal na sombra da alcáçova perdida.

11.2.08

hoje, para P.M.

© pedro morais

9.2.08

passam os dias passam devagar secos como o pólen que o vento primaveril
veio depositar nos passeios nos terraços no alcatrão
passam os automóveis de janelas abertas
e raparigas de vestidos curtos sem mangas

mulheres-a-dias penduram cobertores húmidos nos estendais
arejam a sala o quarto a arrecadação
passam as mãos nos cabelos limpam o suor desfasado no tempo
passam as mãos passam o ventre no comboio apinhado ajeitam a carteira
passam a ferro travesseiros colchas e lençóis
ajeitam as crianças que a patroa não tem tempo de levar à escola
passam horas minutos palavras apagadas pela poeira que assombra o inverno
o vazio alastra logo acima do diafragma comprimindo os pulmões
as costelas o coração

passam os dias passam secos como o saibro da alameda do jardim botânico
secos como a sombra da fraga onde crescem o tomilho e a hortelã
a que cheiram as raparigas quando cheiram como botões de magnólia
têm a pele suave das camélias e os rapazes demoram o olhar nas suas bocas
ao entardecer sonham com um violino com violetas ouvem acórdeão e sanfonas

ao entardecer lagartas licranços centopeias ratos escaravelhos lesmas
térmitas e lacraus proliferam na terra temperada por uma falsa estação.





© cj

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