4.10.07


© rosi (work in progress)

resguarda-se no reflexo da cidade sobre a montra do bar expresso
aquecendo as mãos na chávena escaldada enquanto
o rapaz desenha escamas de dinossáurio, centáureas azuis, açucenas, gramíneas

o plano onde se desfaz a bruma solar
o limite onde o amor do homem a sustém e contamina.

1.10.07


(c) rosi

há uma casa de janelas fechadas
um quintal de cascalho
roseiras, hortênsias, hibiscos e orquídeas selvagens
caem frutos putrefactos
numa noite de outono.

posso sempre sair por essa porta
diz o homem
posso sempre desejar-te como um fragmento
ao ver-te passar por entre a revoada de folhas de choupo que o vento levanta
imaginar-te aí como um fotão posso sempre desejar-te
riscada sobre os papéis onde escrevo, impaciente
posso sempre desejar-te repito
posso sentir a tua pele na minha boca, luminescente
a pele dos teus seios, da curva dos antebraços
antes do lugar que articula o meu desejo
o cotovelo onde te agarro quando me desconheço

posso
sempre
desejar-te muito


a mulher cruza os braços
entra na casa de
fôlego perdido, as janelas fechadas.
caem frutos putrefactos
numa noite de outono.


(aguarela sobre papel, 1989)

24.9.07


(aguarela sobre papel, sem data)

para o meu desamor um novo ângulo
um lugar abstracto de copa aberta
o sangue pisado
a cal viva

as palavras cegas do poema.

22.9.07



(aguarela sobre papel, anos 80)

21.9.07

(revisão por luís)

Sopras-me nos lábios
a sombra dos grifos

deixas-me a pele rasa
um corpo fóssil
na garganta do rio.

para F.

18.9.07

(revisão por at)

sopras dos meus lábios
a sombra do voo dos grifos
os veios das escarpas

deixas-me a pele rasa
um corpo fóssil
na garganta quebrada do rio.

17.9.07



finge que sopras dos meus lábios

a sombra do voo dos grifos
os veios das escarpas

e deixa-me a pele rasa
um corpo fóssil

na garganta quebrada do rio.

13.9.07

(detalhe, aguarela sobre papel)

12.9.07


© pedro morais, 2007


PAINT IT BLACK


o novo blog de pedro morais

11.9.07



(caneta sobre papel, setembro 2007)

tenho cinco pontos fortes a meu favor
a mulher enumera estendendo a mão
sussurrando

(crescem no meu colo crianças de amor desgarrado e desinquieto
mantenho limpa uma sala que é quarto que é leito que é corpo o teu e o meu
que é ventre que é mesa na casa mansa onde não há portas fechadas
onde danço descalça sobre vidros, reflexos e penas
o olhar a pele os seios as mãos o sexo ávidos da tua presença)

cinco pontos fortes
os pés feridos, a cintura amarrada
a ânsia desesperada o olhar desmedido
a liberdade desamparada
e todos os dias morro mais uma vez só
definho sob a tua influência

(it’s a wonderful life)

5.9.07

para o Pampam


(caneta e ecoline sobre papel, 1992)




mulheres outras.

2.9.07



(caneta sobre papel, setembro 2007)

encostada no teu ombro, respiro o odor da tua pele na minha mão
quando afastas sombras do meu rosto como quem desembacia uma vidraça
é quase noite
e a casa de quartos vazios escurece pouco a pouco
passada a hora dos pardais, caladas as cigarras
desligam-se os pulsos dos anseios, entrecruzam-se as artérias do silêncio

e vagueamos pelas divisões esperando ficar sózinhos
cada corpo e o seu vazio
deambulantes, sem saber o que fazer das palavras
o que fazer dos espaços demasiado ocupados
nas horas em que todos os lugares estão tão preenchidos
por tudo o que ainda falta fazer
e a inércia é uma rocha negra onde adormeço de olhos abertos
onde me colhe a madrugada dos corvos infectos
que me devoram a voz, que me arrancam o último olhar.

mas a tua pele cheira a lavanda
os teus dedos perseguem as sombras no meu rosto

e, num relance, sonho que sorrimos.


31.8.07



(biblioteca da universidade de aveiro, projecto de álvaro siza vieira)


"language becomes a form of light while light becomes a language"
steven holl

"language sometimes becomes a form of darkness

while light may always become a language"
margarete

"language is a virus" atrib. William S. Burroughs

26.8.07


© kiasma

uma luz intensa perfura o olhar
a nuca requebrada sobre o estofo gasto
estendendo em arco a linha do pescoço
essa linha que desenho no canto da página branca
do caderno de argolas de capa preta
as mãos entreabertas cruzadas sobre os braços
sustendo a arcada óssea
amparando o ritmo da respiração cansada

e sinto
o vento límpido agitando as ervas secas do planalto
as pedras surdas as pálpebras semicerradas
a luz que se desfaz antes da tempestade.

mas, numa outra hora
colho grandes braçadas de branca gypsophila.

21.8.07




(caneta sobre papel, agosto 2007)

as mulheres que imagino
no comboio, ao olhar para elas.

14.8.07



(tinta da china sobre papel, 1984)


hoje o dia ficou de novo azul

como a água parada na tina onde banharas a face cansada
como o declive cavado no corpo pelos teus dedos em busca das minhas mãos lisas
como quem afaga a secura, como quem assim se sacia

e é tarde meu amor para o habitual passeio na palma das sombras que nos abrigam
é demasiada a tarde em que me desenlaças a cintura
e ninguém me saberá dizer de novo o teu nome
levado por inclemente porvir
neste tempo de marés-vivas
deixando vazia a casa
o areal varrido pela ventania.


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