19.2.08


© zp

intertexto

há muito que deixaram de gostar de ti por razões obscuras

e se a vida continua a piorar dir-te-ão o contrário
fazem jogging cardio-fitness depilação
têm a barba aparentemente displicentemente aparada
o palavreado seco a voz tecnocrata bem colocada sem pigarro
são deus e o homem fazem projectos emitem opiniões
decisões sobre os mais convenientes pareceres técnicos
pensam na casa na rapariga top model no tablóide
no carro desportivo na nação tão humanos tão banais vestem fato-de-treino
fato-armani-rosa-e-teixeira blusão-de-camurça sapato-de-vela
workaholics e puritanos não fumam viverão para sempre
jantam com banqueiros magnatas especialistas e socialites
compram acções e se a vida continua a piorar
enquanto não sabes o que fazer com o salário mínimo com o seguro
com o crédito para o fogão para a televisão para os livros escolares
enfurecer-se-ão por não estares humildemente agradecido
pelas estradas leis planos de ordenamento investimentos gestão transparente
pela avaliação do vizinho do colega do chefe da mulher-a-dias do cão
pela internet e os estádios a culpa será dos ministros dos autarcas dos jornalistas
do povo infecto improdutivo dos corruptos será também tua
que não saberás ser boy subserviente diligente bem-falante
e disputas os leitos de cheia para a tua mísera vida
olha os móveis os bibelots as colchas almofadadas
os frigoríficos os televisores que a lama emporcalhou
para os quais é necessário disponibilizar share mediático
encontrar palavras de piedade e comiseração

há muito que deixaram de gostar de ti por razões obscuras
sabem que ninguém se lembra das cheias nos anos oitenta
nos anos sessenta em 2008 já nem se lembram das de 2001
evidenciarão a diminuição do número de mortos um progresso
que no tempo da outra senhora era tudo tão mais fácil
não havia o culto da miséria nos talkshow da televisão
ainda assim cansar-se-ão depressa esquecerão
que escorrem 35 litros de água por metro quadrado
na direcção da ribeira do prior velho, da ribeira de alcântara, do rio trancão

há muito que deixaram de gostar de ti por razões obscuras.

17.2.08



(caneta rotring sobre papel)

camélia
(flores no quintal quando está frio e húmido)

(ser)
livre
(o exercício diário)

som
(da voz, das palavras, dos afagos, dos beijos, da música, do vento, das vagas no mar, dos passos na calçada, da caruma a estalar)

solar
(o estado de espírito)

negro
(o outro estado)

filhos
(os meus, os meus)

pele
(onde reverbera o desejo)

lugar
(a cidade, a casa, o quintal, o penedo, a sombra da árvore, o areal, os braços dos meus amores)

livro
(o outro lugar. o sonho, o poema, a descoberta, o desejo, o reencontro, a biblioteca, a livraria, o cheiro da casa onde já não vivo)

canela
(o perfume, a comida, o oriente, as caravelas, um dia de festa)

tela
(a do cinema, a da pintura, a do tambor)

luz
(a que me permite olhar os teus olhos, a que traz a noite quando se vai)



para o jpt e o jpn.

13.2.08


cinco minutos na varanda do lugar comum

o café sobre a mesa o caderno vermelho que acompanha a agenda

e um contraluz matinal sobre a mata do jardim botânico o rio a serra

onde sopra o vento que cedo soprara na porta de casa.

a vista tem o rumor dos pólens das poeiras a surdez do tráfego matinal

veio no silvo da locomotiva por entre colinas nos braços dos afluentes

no abraço da criança ensonada nos belos rostos dos adolescentes

chegando ao areal na sombra da alcáçova perdida.

11.2.08

hoje, para P.M.

© pedro morais

9.2.08

passam os dias passam devagar secos como o pólen que o vento primaveril
veio depositar nos passeios nos terraços no alcatrão
passam os automóveis de janelas abertas
e raparigas de vestidos curtos sem mangas

mulheres-a-dias penduram cobertores húmidos nos estendais
arejam a sala o quarto a arrecadação
passam as mãos nos cabelos limpam o suor desfasado no tempo
passam as mãos passam o ventre no comboio apinhado ajeitam a carteira
passam a ferro travesseiros colchas e lençóis
ajeitam as crianças que a patroa não tem tempo de levar à escola
passam horas minutos palavras apagadas pela poeira que assombra o inverno
o vazio alastra logo acima do diafragma comprimindo os pulmões
as costelas o coração

passam os dias passam secos como o saibro da alameda do jardim botânico
secos como a sombra da fraga onde crescem o tomilho e a hortelã
a que cheiram as raparigas quando cheiram como botões de magnólia
têm a pele suave das camélias e os rapazes demoram o olhar nas suas bocas
ao entardecer sonham com um violino com violetas ouvem acórdeão e sanfonas

ao entardecer lagartas licranços centopeias ratos escaravelhos lesmas
térmitas e lacraus proliferam na terra temperada por uma falsa estação.





© cj

31.1.08


© margarete

na entrada do quarto encontro troncos de árvores que
como vasos sanguíneos atravessam o chão que me ampara
e o tecto que me cobre
enquanto afasto do meu olhar folhagens imaginárias.
quando chegar o último sono de inverno
por entre as sombras da mata e o voo dos corvos

quero sentir os teus joelhos dobrarem as minhas pernas
enquanto me abraças os ombros a partir dos cotovelos desarmados
inclinar o rosto sobre o teu peito e sentir as tuas mãos recolherem
da minha face a caligrafia dos terrores diurnos

e sentir na pele a luz a terra húmida e perfumada.

23.1.08


(1989, caneta e aguarela, sobre papel)

scarlata.

21.1.08

hoje, para R.

sabes rosa, tu que o és apenas no meu peito
rosa do leste maria do rosário
rosa só para mim

digo-o quando me sento no quarto onde adormeço
e chove como só no Porto se te ausentas
nesse quarto onde desenho e pinto
onde crescem dunas de areia no tabuado se voltar a Espinho
onde cheira a grafite a têmpera a cordas
às grades de madeira construídas nas oficinas do jardim
tu que és rosa da china rosa das sombras
cresces no meu corpo como um líquene
ao som da new wave

longo perdura o nosso amor assim


© pedro morais

18.1.08



quando te encontro assim de repente quando não me olhas

olhando-me nas palavras de outrém
quando estás aí do outro lado não estando
quando és o lótus a cal
seis graus de adobe o mar.

17.1.08

contra a lapidação

"El artículo 104 del Código Penal iraní describe que la pena con la que se castigará el "delito" del adulterio será la lapidación. Para ello se usarán piedras "no tan grandes como para matar a la persona de uno o dos golpes, ni tan pequeñas como para no poder considerarlas piedras". En el artículo 102 se detalla que para ejecutar este castigo, en el caso de un hombre, se le enterrará en el suelo hasta la cintura, y en el caso de las mujeres, hasta el pecho.

Amnistía Internacional lanza hoy el informe contra la lapidación en Irán, mientras, al menos 11 personas, están condenadas."


assinar a petição

16.1.08

escrevo agora enquanto as nuvens são tomadas pela luz do meio-dia
busco palavras no peito procuro as folhas que te cobriram nos passeios
entretanto levadas pelas mulheres da limpeza

classificadas pelo burocrático amanuense
pisadas pelos estudantes pelos cães por todos os vadios incineradas
expurgadas pelos homens de sobretudo escuro que fazem sérias assembleias
homens grisalhos tão garbosos na sua meia-idade
acompanhados de mulheres tão elegantemente vestidas de fazendas masculinas
italianas por certo os sapatos também
decoradas por ouro coral pérolas
pelo rubor de uma pele esticada durante horas de ginásio
tão bem que me toma alguma inveja de secretaria
tanta que sinto as penas dos corvos crescerem pelos antebraços
rompendo a derme e a epiderme
enquanto cresce o nariz adunco qual bico necrófago
a voz articula silvos arqueia-se-me a coluna
perco o ar.

fujo.
passam dois anos enquanto escrevo engordo envelheço sorrio
desenho as nuvens tomadas pela luz do meio-dia
busco palavras procuro as folhas que te cobriram nos passeios
antes que seja tarde tarde
antes que morra o meu coração
nesse espaço de artérias entupidas.

13.1.08


parto reservando um lugar no contra-sentido para melhor me poder afastar
enquanto a locomotiva curva no dorso das colinas preguiçosa
rindo-se dos campos de nabos e couves, dos salgueiros desfolhados
das azinheiras e dos loureiros, das aldeias desmembradas
e vão parece o meu corpo, vão parece o pensamento

enquanto me aguardam as ruas vazias da cidade
é sábado à tarde quando há bandos de pássaros no choupal
e o burgo regurgita de vida nos centros comerciais
a minha face irregular está cansada
tomba a cal das argamassas que alguém recobriu de cores plásticas e opacas
impermeáveis ficaram as casas arfantes os velhos
sentados nos umbrais de cimento
a fingir pedra cansada
cansada a cidade que se reconstrói fingindo ser o que já não é

e busca recobro nos planos envidraçados dos pontos de encontro de fast-food
onde a luz do sol é filtrada o ar que se respira condicionado a chuva não entra
e bandos de pardais desgarrados se empanturram de restos de pão e de gordura
onde já nem se fuma onde se fala e cala e de novo se fala
ao telemóvel ao ouvido das crianças mordiscando a orelha dos namorados
gritando aos mais surdos
enquanto uns se enlaçam outros se encontram e uns outros se afastam

eu assim me afasto em silêncio
subo a calçada de seixos rolados colhidos no rio
quando havia um areal, laranjais perfumados e um cais de madeira
regresso no contra-sentido
vão parece o meu olhar.




(esferográfica sobre papel, 1986)

11.1.08


© teresa figueira

2008
(ou os belos postais que recebi por estes dias)

10.1.08



© andré bonirre

filmes no sótão 2007
(ou os belos presentes que recebi por estes dias)

9.1.08


(ou os belos convites que recebi por estes dias)


© pedro tudela e rosi

solestício de inverno
(ou os belos postais que recebi por estes dias)

8.1.08


© pedro morais


sombra no deserto
(ou os belos presentes que recebi por estes dias)

6.1.08

vela uma penumbra de giz
embacia o corpo das palavras
o pulso que não se sente
o olhar de cinzas a pele que só arrancada.

ao amanhecer terás os passeios cobertos de gelo
prematuros bandos de pássaros sobrevoarão os jacarandás
os plátanos
encontrar-te-ão adormecido coberto de folhas
e nuas estarão as sacadas da praça
vagas as janelas de lioz macio
como a pele dos rapazes os lábios das raparigas
vazas estarão as marés o cais o tejo
vaza a luz ao relento
quando passares em silêncio.


© kiasma

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