
(tinta permanente e tinta-da-china sobre papel, sem data)
tenho as mãos magras cavas
as artérias inchadas
a vista olheirenta
os lábios encarniçados
a pele transparente
o corpo cadente
o teu olhar ausente.
10.8.07
Posted by
blue
at
9:27 p.m.
9
comments
8.8.07
é tarde quando atravessas a praça da oliveira
é talvez outono, ou mesmo inverno e
atravessas o ar gelado de braços cruzados sobre os livros
os seios ainda pequenos
a passada rápida ao largo do vão de escada que cheira a urina
antes dos degraus de pedra gasta, antes da secretária de empréstimo
antes do vidro que é porta
antes da biblioteca.
é uma rapariga essa que atravessa o amplo o sobrado
e que se acocora junto das estantes
junto ao outro sobrado que nunca pisará
o-dos-livros-para-adultos
(o dos livros que lê em casa ou que a avó lhe compra na casa havanesa)
a luz é esparsa, absorvem-na os tectos de maceira pintados
absorvem-na as poeiras, o cheiro a papel, as encadernações manuseadas
as palavras impressas
interlocutoras e suporte de um anseio desconhecido
conformando o olhar, a voz, o vazio que a levará para longe
e que dali avisto como se fora de uma outra vida.
no verão seguinte, a mãe ofereceu-lhe o tubo de máscara negra
que lhe afundará ainda mais o olhar
o pai a câmara fotográfica
o sentido da luz e as vertentes do obscuro
(e ficas só)
as sessões de cine-clube, as matinés
os cantares de amigo quase sussurrados a quatro vozes
em noites de verão no claustro descoberto ao luar
tendo como ouvintes o lajedo, as gárgulas, os fustes desfolhados
os arcos de pedra sequenciando vozes nos inversos reflexos do dia-a-dia
suspensa a alma nas linhas melódicas das canções heróicas
as palavras plenas do futuro.
Posted by
blue
at
10:43 p.m.
10
comments
6.8.07
2.8.07

© zp
deitada na beira-rio esqueci as sombras velozes que varreram
o esquálido corpo da cidade enquanto te ausentavas devagar
devagar. proliferam incêndios de verão
e o verão também ele por mim perdido.
arde o estio que pressentirás apenas na pele rouca
nos ventres curvos das raparigas
nos pés varridos pelas sombras cinzentas das nuvens
e expostos ao vento
à esparsa tonalidade do desejo
entorpecidos.
Posted by
blue
at
12:24 p.m.
8
comments
Purga no Museu
A directora do MNAA foi despedida. Depois de ter posto o Museu nas primeiras páginas, de o ter aberto a novos públicos, de ter organizado grandes exposições internacionais, de ter obtido financiamentos que o IPM desviou, Dalila Rodrigues foi chamada, no primeiro dia da silly season, ao aparatchik do bloco central e à ministra do Joe Berardo, para ser despedida. Acusada de "divergir publicamente do governo" Dalila é humilhada, como outros o foram antes, por estes mesmos protagonistas, perante o usual silêncio dos intelectuais, o silêncio de que falou Steiner.
Não sei qual é a política de Bairrão Oleiro e Pires de Lima para os Museus. Se é fechá-los aos fins-de-semana e esvaziá-los de recursos, então, claramente, Dalila destoava.
Sem Dalila ficamos mais tristes. Mas onde quer que esteja, Dalila Rodrigues estará sempre onde os cínicos que a substituiram nunca chegarão.
Luís Januário in http://anaturezadomal.blogspot.com/
Posted by
blue
at
8:59 a.m.
5
comments
29.7.07
Posted by
blue
at
11:21 a.m.
18
comments
27.7.07
Posted by
blue
at
7:11 a.m.
8
comments
25.7.07
24.7.07

(tinta-da-china sobre cartolina, sem data)
em decomposição, a tarde
palavra a palavra em decomposição
o tempo, o corpo, a voz.
em volta, as paredes alvas de cal, o tecto elevado pintado de cores suaves
a cabeceira da cama em cerejeira, o brilho debotado do verniz de boneca
os travesseiros que amparam a linha de nuca
os dedos emaranhados nas borlas de lã
os planos de linho lavado onde esmorecem calafrios
uma face que se afunda no antebraço cavo de um beijo
a quietude perfuma o silêncio, os livros de bolso de papel escurecido.
Posted by
blue
at
9:46 p.m.
7
comments
22.7.07
Posted by
blue
at
1:16 p.m.
18
comments
19.7.07
com um olhar de grafite
a curva que diverge dos rumores complacentes e que enegrece
a face das palavras
e estendo-me imóvel na margem seca de argila
na borda-de-água vertebral e granítica
imaginando-te estendido no calhau rolado da calçada
na sombra íngreme dos corvos
na luz parda dos arenitos
(e quero ver-te riscar cidades como desfiladeiros metálicos
naves absurdas cerzidas por palavras desenhadas)
Posted by
blue
at
11:59 p.m.
11
comments
16.7.07
não posso mostrar-te a curva negra em torno dos meus olhos
nem sequer as rugas dos meus lábios secos.
a saudade não existe para uma dor tão grande
e a solidão torna-se grave como a ventania que se abateu no mar.
Posted by
blue
at
11:59 p.m.
17
comments



(caneta, tinta-da-china e aguarela sobre papel, julho 2007)
falso retrato com anton pávlovitch tchékhov (2)
Posted by
blue
at
11:57 p.m.
9
comments
13.7.07
para M.
sentei-te no meu colo onde te aninhaste, outra vez pequenina.
sombras na arcaria em contraponto dão-nos cascatas de harmonias
caídas como a luz perdida dos petardos de ano novo e nós escutamos
caules ávidos
os olhos translúcidos como taças
corolas de fragor antigo nas paredes, flores de talha
voluptuosas e sombrias sobre o vidrado da geometria moçárabe
assinalando altares, o verso da porta de pedra imaculada
indicando o poente
e eu abracei-te no meu colo, outra vez pequenina
e foi lá que nos embalei por tonalidades misteriosas
cantos masculinos sobre um perdido deus menino
como quem se embala num navio assolado por vagas obscuras
e imensas
as tuas mãos mergulhadas nas minhas,
feitas ouro, incenso e mirra
em dia de música, em dia de reis
onde a esperança é o lugar deste abraço tão apertado
a nossa pequena e luminosa história.
hoje não tocaram alaúde, violeta ou sanfona
a pedra era pedra sob a cerâmica
ou sob o oiro vegetal da talha
e o arcabouço da velha sé albergou vozes como cordas
olhares como caixas de som
ecos doutros tempos adormecidos.
(esferográfica sobre papel, sem data)
Posted by
blue
at
12:42 a.m.
12
comments
11.7.07
(ensurdeço ao ouvir-te)
na cidade cáustica e indiferente volumes claros de cota alta
escondem o denso montado que reveste as encostas da serra
crescem impunes braços informes do velho burgo
amputando o horizonte
(e com o meu olhar procuro)
as acácias, as figueiras
entrecortando as linhas de cumieira de telha argamassada
e assinalando os pátios onde vides ensobram poiais de ladrilho
as açoteias assentes sobre abóbadas de pedra caliça
as laranjeiras adossadas às paredes das cisternas
os muros de adobo onde se apoiam buganvílias floridas
as argamassas que se decompõem no sopro das ausências
(emudeço. o olhar cerceado pelas palavras que não proferes)
nesse reflexo inquieto, seco
corre célere o sangue, arfante a pele
a face caiada
e enrubesço.
Posted by
blue
at
12:24 a.m.
11
comments
10.7.07
6.7.07
Posted by
blue
at
11:08 p.m.
9
comments
Arquivo do blogue
- março (2)
- fevereiro (2)
- janeiro (3)
- dezembro (3)
- novembro (5)
- outubro (5)
- setembro (10)
- agosto (9)
- julho (8)
- junho (5)
- maio (10)
- abril (16)
- março (13)
- fevereiro (3)
- janeiro (10)
- dezembro (17)
- novembro (15)
- outubro (9)
- setembro (8)
- agosto (12)
- julho (11)
- junho (8)
- maio (13)
- abril (7)
- março (13)
- fevereiro (8)
- janeiro (15)
- dezembro (9)
- novembro (10)
- outubro (15)
- setembro (13)
- agosto (10)
- julho (14)
- junho (15)
- maio (20)
- abril (17)
- março (23)
- fevereiro (18)
- janeiro (32)
- dezembro (13)
- novembro (18)
- outubro (13)
- setembro (15)
- agosto (12)
- fevereiro (1)
- janeiro (4)
























