13.1.08


parto reservando um lugar no contra-sentido para melhor me poder afastar
enquanto a locomotiva curva no dorso das colinas preguiçosa
rindo-se dos campos de nabos e couves, dos salgueiros desfolhados
das azinheiras e dos loureiros, das aldeias desmembradas
e vão parece o meu corpo, vão parece o pensamento

enquanto me aguardam as ruas vazias da cidade
é sábado à tarde quando há bandos de pássaros no choupal
e o burgo regurgita de vida nos centros comerciais
a minha face irregular está cansada
tomba a cal das argamassas que alguém recobriu de cores plásticas e opacas
impermeáveis ficaram as casas arfantes os velhos
sentados nos umbrais de cimento
a fingir pedra cansada
cansada a cidade que se reconstrói fingindo ser o que já não é

e busca recobro nos planos envidraçados dos pontos de encontro de fast-food
onde a luz do sol é filtrada o ar que se respira condicionado a chuva não entra
e bandos de pardais desgarrados se empanturram de restos de pão e de gordura
onde já nem se fuma onde se fala e cala e de novo se fala
ao telemóvel ao ouvido das crianças mordiscando a orelha dos namorados
gritando aos mais surdos
enquanto uns se enlaçam outros se encontram e uns outros se afastam

eu assim me afasto em silêncio
subo a calçada de seixos rolados colhidos no rio
quando havia um areal, laranjais perfumados e um cais de madeira
regresso no contra-sentido
vão parece o meu olhar.




(esferográfica sobre papel, 1986)

11.1.08


© teresa figueira

2008
(ou os belos postais que recebi por estes dias)

10.1.08



© andré bonirre

filmes no sótão 2007
(ou os belos presentes que recebi por estes dias)

9.1.08


(ou os belos convites que recebi por estes dias)


© pedro tudela e rosi

solestício de inverno
(ou os belos postais que recebi por estes dias)

8.1.08


© pedro morais


sombra no deserto
(ou os belos presentes que recebi por estes dias)

6.1.08

vela uma penumbra de giz
embacia o corpo das palavras
o pulso que não se sente
o olhar de cinzas a pele que só arrancada.

ao amanhecer terás os passeios cobertos de gelo
prematuros bandos de pássaros sobrevoarão os jacarandás
os plátanos
encontrar-te-ão adormecido coberto de folhas
e nuas estarão as sacadas da praça
vagas as janelas de lioz macio
como a pele dos rapazes os lábios das raparigas
vazas estarão as marés o cais o tejo
vaza a luz ao relento
quando passares em silêncio.


© kiasma

3.1.08


© rosi

solestício de inverno
(ou os belos postais que recebi por estes dias)

30.12.07



(work in progress, caneta sobre papel, dezembro 2007)

retrato de menina com flores

(as flores:
algo de belo com um lado negro
que umas vezes sustenta
outras devora
outras condiciona
outras simplesmente é)

27.12.07

Benazir Bhutto 1953-2007

em decomposição
palavra a palavra
em decomposição, em câmara lenta
o tempo, a voz
sente a areia fina que o vento sopra contra a pele
contra o linho branco a luz intensa
os golpes secos
a boca que não se resguarda da terra

em câmara lenta palavra a palavra clara

22.12.07



boas festas e um bom ano para todos os que por aqui vão passando
desconhecidos e amigos


boas festas e um bom ano também para os meus bloggers de todos os dias

antónio figueira, no cinco dias
josé pimentel, no ma-shamba
luís januário e andré bonirre, n' a natureza do mal
ana, em um buraco na sombra
margarete, no acknowledge (or whatever) thyself
os pescada, no pescada nº5
kiasma, no kiasma
pedro morais, no semdatamarcada e no paint it black
jpn, no respirar o mesmo ar
sandra costa, no tubo de ensaio
scarlata, na caixa de lata
isabel mendes ferreira, n' o piano
laura, no photomaton
bruno béu, no paperback cell
ana, em ana de amsterdam
rui bebiano, n' a terceira noite
as oliveiras, no olivesaria

20.12.07



(caneta sobre papel, 2007)

18.12.07

interponho um ecrã entre o teu rosto e o meu
armo-me de pele pálida e olhar transparente
e através desse filtro desencontrado
tombo na opacidade das tuas palavras
o espaço que me reservas desse outro lado.

entre os duplos sentidos da tua pele sobre a minha
interpõem-se noites irrequietas, insónias
um desejo cabal de entrega que a pouco sabe
propagam-se vazios, contaminações.

lá fora sopra o vento, está frio
não sei de quem se entrega

de quem se perde como eu te perco
num dia assim.

11.12.07



10.12.07

casca de laranja
calondro
dois figos

uma tangerina
vento do norte que trazes asas abertas
levas o meu amor de cangalha.

no meio das folhagens vermelhas, penas perdidas
brumas humedecem os paralelos da estrada
vento do norte vens de pele descoberta
fazes do meu corpo uma rótula exposta
trazes-me o inverno

levas o meu amor de cangalha.

7.12.07

one from the heart

© pedro tudela

3.12.07

para MM.


thinking of you: now!

28.11.07



para lá do hemisfério das palavras solitárias

cresce o rapaz por entre os muros da escola
cresce longe de casa, sem o cheiro do pão cozido,
sem trepadeiras de rosas vermelhas
sem hortênsias azuladas por linha de horizonte
logo após a cerca, logo antes dos valados verdes de musgo
antes dos pastos de aveia, do pousio, da tremocilha

em casa ficou joaquina rosa de olhar e regaço mansos
cobertos por avental imaculado
ficou o grande joaquim embrulhado em lençóis de linho grosso
as mãos magras dela entrelaçadas nos dedos desajeitados dele
ficaram as crianças que o rapaz já não pode ser
ajudam a amassar o pão a cobrir de açúcar o doce branco
a acender o forno muito antes da madrugada
uma cama deixada ao frio
uma cadeira vazia na mesa da cozinha

são olhos como poças de água corações apertados pequeninos
à mesa a carne é para os homens de batina
a gula é um pecado mortal, a fome assim também

e intensas são as pautas de música
ah intensas as harmonias que se aprendem a ler
e que ressoam na abóbada da capela como
manchas
solares serpentinas belas

mais do que flores de papel em dia de arraial
mais do que as pétalas que compõem passadeiras para a procissão
mais do que o oiro sobre a nuca das raparigas
intensas e como saciam
cantos gregorianos, oratórias

prenúncio de madrigais.

25.11.07





às seis e quarenta e cinco não está frio no quintal
e eu não encontro os galhos da poda do jasmim
para acender o fogão
às seis e quarenta e cinco é ainda muito cedo
digo para a casa adormecida
falo sózinha às seis e quarenta e cinco
é demasiado cedo confirma o relógio da igreja
reluz a estrela d’alva sobre o vulto negro do pinhal

sentada nas escadas do passadiço organizo o dia que se inicia
dia azul azul azul e não sei dos galhos para acender o fogão
às seis e quarenta e cinco ainda não há pão
não há brumas nem aragem nem geada
não se ouve a passarada
eu tropeço no silêncio
enumero tarefas contadas nos dedos das mãos

a casa quente
o açúcar em ponto de pérola e as gemas para o pudim do abade
as maçãs reineta cobertas de massa de areia
o chocolate negro negro
para a mousse e o fondant
o vinho quente com especiarias e gomos de laranja
o doce de leite
a porcelana de flor de pessegueiro
e eu sem galhos para acender o fogão

pela tarde vestir-me-ei de negro serei minhota
enfiarei contas de oiro de viana
pendentes de oiro puro, arrecadas
flores na casa quente para honrar os que virão

é cedo, muito cedo
para os ausentes, reservarei sempre
um lugar no coração.

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