no domingo de manhã somos todos verdadeiramente iguais.
luís januário, n'a natureza do mal
26.9.09
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1:19 a.m.
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24.9.09
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10:39 p.m.
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22.9.09
os quartos cheios e eu entalada por corredores de silêncio
tragada por mim própria insone
sem lugar outro para deambulações ou equívocos
sem interlocutor ou reflexo
escolho livros das estantes empilho-os junto ao sofá
caiem durante a noite da mesa de cabeceira
pesam-me o sono o peito os bolsos a carteira
entopem passagens
inquieto-me
perpassam-me sombras de poemas
velozes como fotogramas
desenho árvores de palavras
equações de sobressaltos
impeço-me de respirar.

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12:56 a.m.
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21.9.09
9.9.09
7.9.09

© cj
como sempre identificarei este verão pela leitura de alguns livros
Os meus prémios do Thomas Bernhard
A mesa limão do Julian Barnes
Morte em Veneza em vez d’A Montanha Mágica do Thomas Mann
A sangue-frio do Capote por preço de saldo
nenhuma poesia
uma lista que deambulou entre a mensagem electrónica de R.
e os escaparates das livrarias
sou demasiado preguiçosa para anotar os livros que leio
os meus livros de verão são
viagens por outros paralelos economato de impossibilidades
condensada sintaxe de figuras
ideogramas para a morte
agora que estamos quase na próxima estação
deixam-me em estado de alerta
entregam-me a insónias atravessam pesadelos diurnos
alimentam extensos dias de trabalho
nenhuma poesia repito excepto a que L. traduziu
o maior número de filmes possível entre o cinema e o clube de vídeo
o maior número de vezes para escutar
Zach Condon
Owen Pallet
Win Buttler e Regine
afasto-me pouco a pouco
imersa na invisibilidade que me atribui um final
esqueço-me dos mortos esqueço-me dos debates eleitorais desenho
raparigas de cabelo vermelho que escrutinam cutículas e digitam mensagens
em telemóveis de última geração
rapazes de penteados artificialmente revoltos personagens de manga
mulheres-a-dias e os seus crochés
quero sentar-me ao largo das suas conversas
das suas pequenas misérias hospitalares
imaginar-me a solo sem desígnio
aguardando sem nada esperar
encontro-lhes porém outras histórias
às vezes aquelas que leio nos meus livros de verão
não estou de férias pouco descanso pouco durmo
a memória trai-me
o tempo falha-me
ausento-me do que não deveria
outros se ausentam de mim
um verão por interpostas leituras vou hoje arrumá-las
por ordem geográfica nas prateleiras do corredor.
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1:27 p.m.
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30.8.09
21.8.09
16.8.09
12.8.09
quanto tempo para o silêncio
que se faz acompanhar do sobressalto
o enclave que se oculta no tórax um ser voraz
que me arranca à quietude artificial da canícula
enquanto da sala espreito o Jardim
ando devagar sobre a alcatifa
organizo pautas no meu crânio
em surdina falo sozinha
parade sauvage pour arthur rimbaud
das sombras olham-me os poetas sentados no canto da mesa
digo sílaba a sílaba
hector zazou
sahara blue
deleito-me com esta interlocução repito-a
embalo-me no som dos tambores entre tímpanos entre versos
quedo-me face aos senhores Edwards
abro o porta-folhas de grande dimensão
sento-me na roda do piano exponho os meus dotes
faço o périplo da cegueira
o zapping dos programas ideológicos da estação
arrumo a mala a correspondência os punhais do desentendimento
e penso que dor obliterara o passado até este deixar de existir
até o presente contornar a dor e esta se transformar em passado
e tu deteres num único momento o poder álacre de mudar a minha vida?
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1:15 p.m.
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11.8.09
6.8.09
continuo a andar
o verão apresenta-se numa disfuncionalidade embaraçosa
eu também
atravesso passeios entro no táxi digo para o largo D. Dinis por favor
ajusto o auscultador nos dias em que me atribuo uma banda sonora
dedico os meus olhos à projecção interior dos espaços que percorro
de comboio de táxi a pé posso dessa forma recriá-los quando escrevo
estranha forma esta de recuperar uma e outra memória
espaços vazios lugares que se apagam outros que reaparecem nítidos
a rua dos Caldeireiros
a rua das Flores
a rua da Bainharia
a rua do Almada
a esquadra onde separo identidades dispersas por objectos perdidos
em busca da minha guardara-a numa carteira
estranha forma de me perder para uma nova vida
saio para a praça observo as fachadas
precisarei de um ano para ser capaz de as desenhar
o que faria pelo jardim de S. Lázaro
passeio pelo largo das Fontainhas
faço de conta que sou um qualquer pássaro uma folha de papel
voo sobre as encostas do rio devo imaginá-las antes do burgo
antes da ponte D. Luís
um exercício escolar
aterro no varão dessa outra desenhada pelo Gustavo Eiffel
agarro-me com força não olho para o rio
avista-se por entre as tábuas do passadiço
se me cai o caderno lá se vão a arquitectura os desenhos os poemas
os números de telefone se caio
não serei como uma folha de papel não terei asas
apenas o peso das gárgulas
volto as costas ao comboio-foguete
estremece a estrutura de ferro a que me ancoro
regresso ao exercício
perceber o corpo das encostas afastar construções
muros de granito empenas de chapa
a folhagem outonal que cobre as ilhas
vergas de porta caiem com estrondo no rio
rapidamente aponto as curvas e as sombras
antes que volte tudo ao seu lugar
caminho de regresso à margem acompanha-me um inter-regional
uma brisa de enxofre
rapazes de farda acenam lançam beatas pelas janelas
dirigem-se à gare de S. Bento eu já não sei por onde de ali saí
creio que foi pela curva de um anfiteatro a céu aberto
a Grécia no Porto desenhos a giz
linhas de uma viagem maior narrada pelo Arquitecto
mapas do Sítio
o genius loci que daí em diante se procurará por todos os lugares de uma vida
a livraria na rua de Ceuta
o recoveiro na Trindade
o cinema da Batalha
o café Guarani
a avenida da ponte
a Galilé
o largo dos Grilos
a rua de Sant’Ana
as fachadas de caixilhos à face assentes sobre taipas coloridas
elevadas da humidade das calçadas por muros de granito
entre prostitutas e chulos bandos de crianças descalças jogam à bola
há roupa pendurada nas janelas
velhas sentadas nos degraus das portas
mulheres com bebés de colo
pescadores na Ribeira observam-me de caderno na mão
esforço-me por desenhar
cobiçam-me os lápis caran d’ache
a caixa lembra as vinhetas dos chocolates suíços
prossigo sozinha.
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1:45 p.m.
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4.8.09
2.8.09
1.8.09
30.7.09

© álvaro rosendo
mais tarde o corpo cansa-se e procura o encaixe
que devolva o soco e consolide estilhaços assim como um airbag de silicone
pacotes de férias nas termas ou nos trópicos mais distantes
na companhia de opiáceos e de analgésicos boiando nas águas do recife
em empreendimentos energeticamente certificados
onde se degustam iguarias ecologicamente confeccionadas
copos de uísque velho sem gelo e os politicamente correctos charutos de Havana
promessas de sexo musculado bordões de misogenia nos outdoors
frente ao vidro faço o risco que assinala a pálpebra e se alonga até às têmporas
de um lado ao outro delimita o curso do escalpelo cravo-o fundo na memória
allumeuse ou puritana porque não me lembrarei eu
de outras definições em mim apostas
contraditórias cegas clarividentes armas de arremesso
shadows have the saddest things to say canta a Mitchell
esta é uma daquelas noites em que me atiro contra mim própria
uma vez após outra e ainda outra sem que se rompa a pele ou quebrem os ossos
sem que vença a aridez de uma esfera que se rarefaz a cada embate
poderia antes gritar se fôlego houvesse
na casa das magnólias onde há um arquivo de repartição
cujos compartimentos de madeira albergam
discos de vinil uns dois milhares alfabeticamente organizados
a música que R. juntou e que se escuta no cansaço da madrugada
digo para mim própria
poderíamos dançar
antes de adormecer no quarto do sótão
e acordar rindo de todos os clichés
abandonando o pudor do déjà-vu
posando para o fotógrafo que se deitara no sofá
tem os olhos semicerrados
mede a luminosidade na penumbra
antes de disparar.
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blue
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12:38 a.m.
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27.7.09
20.7.09
não serei
dedicada submissa esquecerei
todas as instruções para a limpeza do lar falharei
as poupanças o mutualismo
a pedicura as unhas de gel o peeling a musculação
chegarei tarde
partirei cedo nos jantares casamentos baptizados
será junto de outrem que me sentarei
serei impulsiva ignara
percorrerei desassombros sem referência
não estarei disponível não tomarei a pílula
ansiarei por todos os preliminares amarei
os filhos de um amor não passível de clausulado
não disporei de património herança promessas eternas
em vão buscar-me-ei por entre sonhos e escombros
para que em vão saibas como reconhecer-me
como perder-me enquanto me pergunto
porque razão haverás tu de querer-me
não serei um bom partido
assim velha gorda distante mal-humorada ávida
tantos adjectivos para uma só pequena pessoa.
© álvaro rosendo
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1:01 a.m.
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