23.11.07



(tinta-da-china e tinta permanente sobre papel, 1986)

20.11.07

soçobrar num murmúrio
sem ar
de olhos abertos e palavra lúcida
sem amor nem agravo
sem um olhar

e saber dos fogo-fátuos a desoras
das pedras roladas na praia
roladas como beijos e afagos


o sal marinho a água a luz o ar



© virgínio moutinho

Criados Mudos

uma exposição de Virgínio Moutinho
no Centro Comercial Bombarda, Rua Miguel Bombarda, Porto

18.11.07

intertexto:

contra mim sem ti por mim longe de ti
escrevo e reescrevo alinhavo
veios salinas rotas mapas
e, contra mim longe de ti
escrevo e reescrevo ateio
fogos crepúsculos erratas

por mim sem ti longe de mim.


(caneta sobre papel, 2007)

12.11.07





6.11.07


Dorothea Lange, 1940

escritas há que eu gostaria de ler todos os dias

entre dois espaços há sempre um outro
entre duas casas que foram uma
o vulto do segredo assenta sob a abóbada
de cal e areia que se avista pela fresta de uma porta


vejo a tina de ferro oxidado onde um homem adormece
a tulha de pedra, braçadas de linho, ramos de tomilho, barbas de milho, violetas
duas ramagens de pele ruborizada e um beijo
uma mão cheia de gargalhadas na peneira da farinha

entre cada espaço entre cada passada
uma pedra branca, o solho de castanho lavado

e depois apenas terra
a argila dos pinhais.

3.11.07

em dia de cemitérios
não chove sobre o anjo quedo na praça da bastilha
não chove no quarto que não é quarto
nem sequer na casa que não é casa
não chove no corpo que é vazio
não é possível que chova no nada.

não chove sobre as árvores do parque
nada humedece o saibro vermelho das alamedas
nada alimenta os líquenes que se desfazem em pó
não chove, hoje não chove
queimam-me a pele astros desamparados
que outra coisa não chove no nada.

29.10.07





anjos para mim.


© F.

retrato

28.10.07



(caneta sobre papel de aguarela, 1995)

anjos para o antónio

24.10.07


© cj

quatro contas de somar
quatro contas de dividir
quatro contas de multiplicar
quatro contas de sumir
enumera a rapariguinha enquanto sobe os degraus de passo lento
na escadaria pombalina do velho hospital
uma cópia, uma redacção, palavras difíceis,
significados, ler para um ditado
mais uns degraus e ficam para trás os rostos dos beneméritos
que a observam recortados nas telas escuras
óleo de linhaça
óleo de fígado de bacalhau tapioca com canela sopas de vinho
retratos de homens pálidos e bem enfarpelados
entre os quais duas mulheres gordas e feias ganharam generoso lugar
seriam muito boas muito ricas
a geografia das terras de além-mar
as linhas do caminho-de-ferro, as serras mansas
mais uns degraus de testa arredondada onde arrasta a cauda do vestido
imaginado à medida do peso da mala onde guarda cadernos de papel
uma caneta parker preta e verde, o mata-borrão
seria de veludo negro e apagaria o que para trás ficava
mais uns degraus e entra no corredor de éter
onde mulheres de sapatilhas brancas transportam bandejas
as linhas de água, os rios, as províncias
as capitais de distrito

no jardim do convento que ao fundo do corredor
se observa da sacada encerrada
irmãs de são francisco parecem flutuar entre o buxo bem talhado
as roseiras, as begónias, as azáleas, as pequenas japoneiras

a mão corre a face da longa parede
conta as portas dos quartos particulares
opacas e silenciosas
desenha a casa a árvore as flores do sol as muralhas do castelo
a penha o pelourinho a caravela
abre-se a porta e o quarto tem duas camas e um berço vazio
uma das camas é articulada e na parede do fundo há uma outra sacada

é outono e os carvalhos, os castanheiros alumiam as vidraças.

20.10.07




(tinta permanente e aguarela sobre papel, 1995)

18.10.07




(caneta sobre papel, 2007)

é um rio de pedras o leito que o sustém
no embalo surdo de um beijo
é o silvo, é o bafo
é imprevidente desejo.

16.10.07





© virgínio moutinho

um livro com imagens anamórficas editado pela Afrontamento e por O Fio de Ariana,
sobre o Mito do Labirinto e de Ariana e cujo tema é o da Metamorfose.
edição de 500 exemplares, numerados e assinados pelo autor.


apresentação do livro/objecto lúdico da autoria de Virgínio Moutinho
Arianamorfoses
um evento inserido nas comemorações dos 25 Anos da editora O Fio de Ariana
19 de Outubro2007, pelas 18h30, na Cooperativa Árvore - Porto

15.10.07



a quem interesse:

o rosto assimétrico é comprido
a oval já em desalinho
a testa demasiado alta, franzida
o nariz grande e torto
os olhos de sobrancelhas desiguais
e olheiras que se afundam

em função do grau de intensidade
da inquietude desencontrada em que vivo.

14.10.07


(lápis sobre papel, 1996)

10.10.07




© F.

regresso na hora das empregadas da limpeza

dos serventes de trabalhos distantes
das enfermeiras, das balconistas
e, coberta por uma maquilhagem já poída, não distingo suores
humores fétidos, as roupas engelhadas das mulheres
as mãos sujas dos homens
enquanto o comboio atravessa, uma após outra sem paragem,
estações vazias para as quais não tem passageiros.
regresso na hora das horas exangues
mas tagarelam raparigas
calados os rostos deles contra a janela, eu escrevo
numa actividade lânguida mãos bordam panos de cozinha
toalhas de mesa de renda crescente
casaquinhos minúsculos para crianças ausentes
e o revisor contempla a linha que o devolverá a casa
e que avista pela porta entreaberta em cada estação vencida.
sabendo que me aguardas
no cais mal iluminado onde nos encontrámos, pergunto-me
se a carcassa desta máquina roufenha perder
o registo dos lugares que estruturam o seu percurso
e,
por uma outra escuridão fora,
continuar infame liberta desvairada?



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