24.10.07


© cj

quatro contas de somar
quatro contas de dividir
quatro contas de multiplicar
quatro contas de sumir
enumera a rapariguinha enquanto sobe os degraus de passo lento
na escadaria pombalina do velho hospital
uma cópia, uma redacção, palavras difíceis,
significados, ler para um ditado
mais uns degraus e ficam para trás os rostos dos beneméritos
que a observam recortados nas telas escuras
óleo de linhaça
óleo de fígado de bacalhau tapioca com canela sopas de vinho
retratos de homens pálidos e bem enfarpelados
entre os quais duas mulheres gordas e feias ganharam generoso lugar
seriam muito boas muito ricas
a geografia das terras de além-mar
as linhas do caminho-de-ferro, as serras mansas
mais uns degraus de testa arredondada onde arrasta a cauda do vestido
imaginado à medida do peso da mala onde guarda cadernos de papel
uma caneta parker preta e verde, o mata-borrão
seria de veludo negro e apagaria o que para trás ficava
mais uns degraus e entra no corredor de éter
onde mulheres de sapatilhas brancas transportam bandejas
as linhas de água, os rios, as províncias
as capitais de distrito

no jardim do convento que ao fundo do corredor
se observa da sacada encerrada
irmãs de são francisco parecem flutuar entre o buxo bem talhado
as roseiras, as begónias, as azáleas, as pequenas japoneiras

a mão corre a face da longa parede
conta as portas dos quartos particulares
opacas e silenciosas
desenha a casa a árvore as flores do sol as muralhas do castelo
a penha o pelourinho a caravela
abre-se a porta e o quarto tem duas camas e um berço vazio
uma das camas é articulada e na parede do fundo há uma outra sacada

é outono e os carvalhos, os castanheiros alumiam as vidraças.

9 comentários:

isabel mendes ferreira disse...

ARITMÉTICA PERFEITA.

ASSIM TRANSFORMADORA.



ASSIM ILUMINADA.



__________________

doce a sombra que desenhas.


bom dia bLUE.

Parker 51 disse...

religare...

Ant�nio disse...

"Os antigos tinham raz�o em pintar anjos nos tectos dos quartos. Parte da vida passa-se a olhar para eles" (Miguel Torga. Di�rio IV)

Luis disse...

Tu é que alumias as vidraças.

hora tardia disse...

é outono sim.

e vim.


aqui em repouso. sossegado.


"berço" de luz. serena.


beijo.

Natália Nunes disse...

Ando sentindo uma doce melancolia ao ler seus textos... fico hiper-sensibilizada.


Beijos, Claudia.

mnemosyne disse...

Olhar como se nunca tivessemos saído dos olhos...
Um beijo
:)

Mar Arável disse...

É a lenha

comida pelo lume

a alumiar os nossos olhos

nas paredes

marisa disse...

belo momeno de uma estória...
as minhas visitas a um dos cantos do teu mundo continuam , já é impensável não o fazer.
beijos

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