10.2.10

um outro lugar um primeiro movimento
sigo nauseada pelo dorso das encostas
chego cedo partira mais cedo ainda
encaminho as crianças pela ladeira
desemboco lá no alto na praça
rodo a chave no portão prometo-me uma mesa de autópsia
um caderno em branco uma vista sobre a avenida um dicionário
uma biblioteca no colégio escuso-me
tropeço nas tabelas nos requisitos nos procedimentos
desenho atendo o telefone acorro a reuniões
é certo que quase me esgotam desculpo-me
galgo o fim de tarde na pressa do regresso
ofegante aspiro ao embalo perdido da locomotiva
cerro por instantes as pálpebras um micro-sono interior
insulto em surdina as viaturas em excesso de velocidade
corro até à paragem escorrego
um destes dias torço o salto do sapato
sem tempo para um ponto de vista para lá da passadeira
das poças de água sujas pelos tubos de escape da luz do semáforo
penso nos compassos nas travessas e linhas de ferro
não mais cosem sulcos nas colinas ao longo dos meandros do rio
por instantes sou um peixe mergulho
todos os dias revejo as instruções

partir em caso de emergência
procurar a parede mestra reunir os filhos esperar
a queda dos sarrafos dos alvéolos de cimento armado das tijoleiras
suster o fôlego até à réplica indiferente contar até cinquenta
até à próxima ajuda humanitária até ao próximo herói contar até cem

em caso de pandemia reter a respiração
evitar a micropulverização do vírus ditar quarentenas
colocar a máscara aguardar a vez esperar

em caso de crise suster o emprego ser flexível
não reclamar dos turnos extensos das cadeiras e salas vazias
há salas empregados e trabalho em excesso
queixam-se empresários de que os asfixiam
que façam fila na paróquia na organização não governamental na associação
que não contraiam empréstimos nem gozem férias tropicais
que vivam afinal as suas pequenas vidas enquanto na televisão asseguram
a salvaguarda das paredes do hemiciclo
os hospitais as escolas a cidade ruirão mas elas não
serão o garante do sistema o abrigo da democracia
todos os dias revejo as instruções

em caso de emergência
saber como não partir descobrir o esteio
prender-me à ramada às terras férteis do aluvião
subir à praça em surdina trautear compassos até à canção
a plenos pulmões a harmonia efémera o risco que me tragam o poema.

7 comentários:

hfm disse...

A plenos pulmões se lê este poema. De um fôlego.

Xana Telles disse...

fez-me lembrar este poema:

http://a-unica-real-tradicao-viva.blogspot.com/2008/09/em-caso-de-incndio.html

Xana

blue disse...

obrigada, Xana pelo link. gostei imenso :)

Laura disse...

Que lindo, Cláudia...

Anónimo disse...

querida Cláudia, adoro os teus labirintos poéticos que obrigam a pensar, a imaginar, a entrar, a procurar...
és poeta com todas as letras, faço vénia ao teu talento (continuo à espera de um livro, será que não há editores passando por aqui?...)
beijo grande
marisa

António disse...

Uau! Extenuado mas saciado.
Bem vinda, de novo.

CCF disse...

Uma vida dita como a minha é, num modo lindo de dizer.
~CC~

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