1.4.09

rua fora
os sentidos cercados pelo descompasso da valsa que o rapaz corrompe
uma caixa aberta um trompete um cavaquinho
o revérbero inesperado

a banda sonora que me transporta
à banda da procissão
à banda do baile

à banda da associação
por passadeira de flores
tão solene mordomo da festa
vagas de transeuntes no insólito solar

quão distante estou de Palermo dos Balcãs do Minho
desenho mulheres e rapazes adormecidos
é tão mais fácil fixar quem não nos toma de assalto

a mulher que desenho parece um pássaro
um desses corvos-marinhos que a temperança trouxe aos baixios do rio
avisto-a por entre canaviais

ensopo os sapatos ao caminhar na sua direcção
sem ensaio nem suporte nem muleta volante
tem as sobrancelhas as pálpebras o cabelo o casaco de malha negros
na pele condensa-se uma nuvem
sobe o nível da água até aos maxilares desmancha-se-lhe o casaco o sexo
cheira a grafite e aos meus olhos acorrem imagens como manchas de óleo

bosques de papiro o cordame de uma vela
o meandro de um ímpeto a ausência de uma sina
por vezes seria mais fácil dizer palavras numa outra língua como

walls gone over the sea
imaginar quatro paredes abertas ao vendaval
desaparecer entre elas e surgir do outro lado
entre o que ouço e o que escrevo o que vejo e o que sei
não tomo notas à medida que caminho
atravesso o parque de estacionamento
a escavação arqueológica
o lajedo do refeitório do colégio
os estratos compostos por escombros
um escudo vinte e cinco tostões garrafas de plástico muros de pedra
uma superfície intacta de reboco feito à colher
o programa do procedimento o caderno de encargos

tapumes palas sobre os olhos as árvores derrubadas na praceta
esqueletos nas sombras do Jardim quão distantes

e próximos de mim que desenho mulheres nos bancos do comboio
assinalo os cílios as rídulas os botões o trejeito da boca
o vocabulário visível que me indica
a professora a mulher-a-dias a enfermeira a balconista a auxiliar de educação
antes na plataforma que a manhã cobrira de gelo tendo a serra por encosto
logo depois rua fora caminhando contra vagas de cotão e pólen

no descompasso que lhes reserva cada dia

imagino-as sobre passadeiras de flores.

8 comentários:

Maria N. disse...

Gosto muito.

Vieira Calado disse...

Bem escrito e bem bonito, este poema!


Bjs

margarete disse...

não diria que faz "perder o fôlego"
estou com alguma dificuldade em encontrar palavras para descrever o ritmo respiratório que este poema me provocou
é certo que acelerou, mas não se tornou porém acelerado

(deu para perceberes?)



"desenho mulheres e rapazes adormecidos" aqui leio como que um resumo da tua expressão, é tão tão a tua voz :) é impressionante!
e assim me vou sem cometer o pecado de explicar este meu espanto-prazer repetindo essa 'linha'...desenho mulheres e rapazes adormecidos

Anónimo disse...

A tua escrita é envolvente, mexe com todos os sentidos. Adorei, que mais posso dizer?
beijo
marisa

JPN disse...

o que mais posso dizer diante de um poema que respira assim?

Laura disse...

...pois... depois disto tudo que se disse...

marta disse...

sem palavras realmente...
um beijo

Leite de Pedra disse...

No deserto, este poema calaria a sede. As suas palavras derramam gotas de luz.

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