9.5.07


(caneta e lápis de cera sobre papel, 1992)

curva a levada no braço do rio

onde curva a linha de esteios de granito que suporta a vide
e se uma linha de choupos delimita a outra margem
onde dobra o curso de água curva a terra no seu seio

(curva-me o ventre, esgana-me a voz
embarga-me o riso, cerra-me os dentes)
e já o arco do meu olhar se afunda na curva da tarde

segue a noiva pelo asfalto que cobre os cubos de granito da antiga estrada
o seu vestido branco é o viço de frondosas sombras, a cacimba
a poalha que lhes ilumina a pele
segue a passada afinada pelo cavaquinho, embalada pela concertina
uma mão enluvada no rude abraço de quem a confia e

outros pares lhe cobrem o rasto claro
fogo-fátuo apressado que o fluir do tempo não determina.

capitéis de pedra recebem o peso do arco que assinala a espera
e o rapaz não veste, como outrora, jaqueta negra
tilintam arrecadas de oiro, velhas beatas, ao cantar, desafinam.
(desabrocham roseirais vermelhos por cada passada)

e já o meu olhar se suaviza
e curva serena a levada.

10 comentários:

hfm disse...

Cantante e belo como uma levada.

Alexandra Alpha disse...

bonito!

laura disse...

gosto do vermelho das fotografias e do vermelho que tem este texto...

isabel mendes ferreira disse...

tanta beleza....mata....



deixei no piano um desafio....


que tb me fizeram...

beijos. e levei... tudo.



obrigada.

manhã disse...

gosto da expressão: já o arco do meu olhar.

Scarlata disse...

[...]segue a noiva pelo asfalto que cobre os cubos de granito da antiga estrada
o seu vestido branco é o viço de frondosas sombras, a cacimba
a poalha que lhes ilumina a pele [...]

(suspiro) Que lindo, e os desenhos sao como sempre fantasticos...

isabel victor disse...

Aqui TUDO encanta e seduz ...

Lá, nas folhas do " Caderno ..." meme pour toi ...


*
da isabel

Bandida disse...

suaves os olhares que se afundam nas tardes.

e a palavra. pele.



B.
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blue disse...

obrigada. hoje, numa luminosa manhã.

bruno .b.c disse...

muito belo, blue.
muito bons os acordes
com que escreveste.
a melodia serena, mas
não tanto que adormeça
e indiferencie.
será que um dia isto
não vai sair daqui
para papel?
e os desenhos? para quando
o que agora fazes é aqui
dado a ver?

um abraço bom.

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