24.1.07



(tinta-da-china sobre papel de aguarela, 1998)

de onde irrompem estas palavras,
rastos únicos de alguém em mim,
em quem duvido reconhecer-me?

cadências de imagens, as palavras organizam-se
sobre a geografia destes anos e,
passo a passo,
inscreveram rotas sobre a pele de todos os dias que recordo,
ao longo de tantos gestos e desejos,
no curso do reconhecimento do que me envolve,
abraça e afoga.

fábulas do desejo, da paixão
ou da morte,
as palavras que aqui grito estão encastradas no meu corpo e

ao arrancá-las para os teus olhos as decifrarem,
piso assim o limiar de todas as mortes

como se não bastasse tudo o que já morreu
dentro de mim.

4 comentários:

blue disse...

o texto é do conjunto escrito em 1992 e é dele que sai o título da pequena edição de autor que fiz mais tarde:

"do desejo, da paixão e da morte"



(eu sei, melodramática, como sempre)

laura disse...

deixo, a propósito de negro, uma coisa que gosto muito:

"só sei o que sou, não sendo.
não sendo: aquilo que sou.
olho p'ra trás e só vejo
as nódoas que a vida deixou.

mágoas negras, nódoas fundas,
contusões d'alma - que dor!
estados de alma tão negros,
que negro nem seja cor."

como sempre, um texto belíssimo, acompanhado de imagens. parecem por vezes a luva e a sua mão!
um beijinho,

António disse...

Excelente pedaço de prosa, Blue. Ilustrações adequadíssimas.
Parabéns

marisa disse...

muito belo, muito bom. para mim verdadeira arte. nunca é demais agradecer-te por partilhares a tua "música", por isso mais uma vez e de certeza não a última: obrigada.
bjs

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