6.9.06





trocam meias-palavras
transmitidas por telefones analógicos
sim, daqueles pretos, arredondados
que trocam palavras mas não olhares

e não sabem quem são
esses estranhos que numa outra hora
articulam novas palavras por inteiro
abafadas pelo ensurdecedor movimento da cervejaria
um olhar amarrado ao outro por voraz identificação

goya, falam de goya e de satie
(é tudo o que importa lembrar)

e depois da chuva e da casa de chá
está frio na senhora do monte de onde se avista a foz
o casaco comprido sobre a pele de sereia
e o olhar mais brilhante (o mais luminoso)
trazem significados desencontrados
aos lugares adivinhados de um tempo impossível

e nenhuma qualquer outra palavra possível sobrevive

estranhos, os pontos que constroem a rede
das memórias que nos ligam

os elos assim formados
moldam-se ao tempo, embora este
também por eles receba forma

e pelas ideias identificação

longe, mas perto.
sempre.

7 comentários:

António disse...

O norte, sempre o norte.

blue disse...

nunca julguei que viesse a ser tão minhota...

António disse...

Pensava mais no Porto, Gaia, não Minho.

blue disse...

é, mas a ser de algum lugar diferente daquele em que nasci, só podia ser do Minho que encarna o "meu norte" (sem segunda leitura). outros nortes existem, onde dormem fragas e soutos, vendavais de que falarei, quem sabe, num outro dia...
mas tens razão (perspicaz, como sempre)
é do Porto de que falo neste texto.

António disse...

Venham os vendavais, pois.

VASCO disse...

Poesia,em grande,ao estilo de Blue,na
procura da sua verdade,comunica ambientes de memória como breves encontros,sensíveis ou tempestuosos,que viveu ou os imaginou...o que é lindo
é como no fim nos dá a chave da sua
poética como um imaginativo processo
de retorno aos elos ou portas que se
formam em "happy end"...tão longe mas
sempre perto ou "bitter sweet".

Continua,gosto.Não podes aumentar um
pouco o lettering? custa a ler.

blue disse...

obrigada, Vasco, gosto muito de te encontrar por aqui. relativamente ao tamanho da letra, já tentei. No entanto, como a coluna de texto é diminuta, o facto de aumentar o tamanho da letra altera o ritmo das frases através de uma excessiva partição de linha. talvez quando eu for capaz de formatar o aspecto gráfico do blog, ao invés de utilizar um existente...

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