7.1.09

apagam-se luzes na ágora
não sei do caminho que me leva à biblioteca de Serai
não sei da fotografia de Susan ou dos bandos de corvos desolados
apagam-se luzes
foguetes reflectem-se na córnea

perfuram o cristalino a retina os tímpanos cravam-se no peito

no entanto
não sinto o cheiro da pólvora o humor dos mortos
não me fere o silvo dos detritos arrastados por vagas de pressão
não se me esmaga o arcaboiço
não ensurdeço
não sufoco
não sei o que é o pavor nem a assolação
estou faminta
nunca me saciaram a alma ou negaram refúgio
detalhe arrogante fútil e inútil
quando se apagam luzes na ágora
rui a biblioteca do palácio
não encontro a fotografia de Susan desolada nos destroços
não ouço o crocitar dos corvos
o fôlego da brisa nas tamareiras
as cordas da pandora.

12 comentários:

hfm disse...

Em silêncio, mas não ausente.

Dos que se guardam no fundo de nós.

AnaMar (pseudónimo) disse...

Sublime.

Mar Arável disse...

Sugiro que ouse

o crocitar dos corvos

azuis

Menina_marota disse...

e na ágora tantos invisíveis se encontram...

que sentem
que ouvem
o grito
das manhãs
sem sol.

Bom ano

Um abraço carinhoso

Bandida disse...

magnífico!!

um excelente 2009!

António disse...

Só para iniciados?!

blue disse...

oh, António, construí o pema a partir de uma fotografia da Annie Leibovitz, em que se vê a Susan Sontag no meios das ruínas da biblioteca de Sarajevo. procurei-a pela net, mas não a encontrei. decidi, ainda assim, publicar o poema. vi a fotografia em Londres, emocionou-me muito.
:)

blue disse...

falo da guerra por causa de Gaza.

as tamareiras, a pandora (outro nome para um tipo de alaúde comum no mediterrâneo)são o Médio Oriente.

os corvos, um pássaro comum.

falo da guerra percebida através do ecran da televisão, em que as bombas, os rockets, parecem fogo-de-artifício em noite de Natal, tal como os vi, no Minho, um pouco por todo o lado.

deveria, provavelmente, ser mais explícita...

obrigada, António.

nd disse...

Eu percebi tudo isso que acima explicou acerca de Gaza. Quanto a Susan Sontag julgo que a explicação não faz falta, no poema é uma Susan no preâmbulo de Gaza.

António disse...

OK, Blue. Obrigado. Assim entendo. De outro modo não. Mea culpa.

blue disse...

sabe, nd, se não fosse importante a Susan Sontag e a fotografia, teria escrito Susana. ou outro nome qualquer.
mas é importante, porque é a Susan Sontag. ainda que não o tenha deixado explícito.

As Sombras de Fim do Dia disse...

sem comentário possível.

Bom 2009

:)

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