8.11.08


a água corre pelas pálpebras pelas pontas do cabelo
curva na escápula nos seios no ventre nos joelhos
contorna as palmas dos pés liberta-me o semblante
sento-me no chão e penso
deveria praticar ioga
erguer-me como uma árvore assimétrica na torrente
de quando em quando o vento arrancar-me-ia uma ou outra ramada
talvez me cobrissem heras ou vinha virgem
não usaria de palavras não as escutaria.

agora que somos todos Americanos indubitavelmente mestiços
só nos falta sermos todos Mulheres
talvez daqui a quarenta anos possam os nossos filhos dizê-lo
pois que nessa matéria a cor da pele não revela diferença
ressalvo que quando falo de Mulheres não falo
daquelas que se portam como homens
e que nada tenho contra os Homens
estou é tão cansada destes tempos vagarosos
onde ainda é possível apedrejar raparigas velá-las como corvos
incendiar-lhes o sari pagar-lhes um salário inferior por igual trabalho
cansada dos parlamentos masculinos das escolas da misogenia
dos estrategas que nos vêem como enfeites para garantir respeito e votos
cansada da bem pensante esquerda da iluminada direita
de todos os que esperam que nos comportemos
com gravidade e circunspecção masculinas
sem histeria dizem condescendentes
as mulheres refilam choram têm síndrome pré-menstrual engravidam
aborrecimentos que perturbam o ideário da gestão asséptica inócua
e muito produtiva - uma meta em alta
estou cansada das mulheres que podendo não compactuar com tudo isto
preferem a tranquilidade dos direitos adquiridos
são melhores os tempos de hoje que os das suas avós e mães mas

só nos falta sermos todos Mulheres digo eu que sou impertinente
que não me calo.

às vezes quando se me escurece a alma penso
deveria praticar ioga
erguer-me como uma árvore assimétrica na torrente
de quando em quando o vento arrancar-me-ia uma ou outra ramada
talvez me cobrissem heras ou vinha virgem
os pássaros alimentar-se-iam de pequenos vermes e insectos
estranhos líquenes tomariam o meu torso

não usaria de palavras não as escutaria.

13 comentários:

CCF disse...

A tua luta é desde sempre a minha luta: mas não saberia escrever palavras tão belas para a expressar!
~CC~

Hugo Besteiro disse...

a impertinência é saudável.

boa foto a de baixo

AnaMar disse...

Se não usasses as palavras como poderíamos ler algo tão enérgico, forte, belo?

marta disse...

dizer tanto... e assim... é poesia.
gostei muito. beijo

Anónimo disse...

Simplesmente belo! Belíssimo.
Obrigada, Mulher.
beijo enorme
marisa

CNS disse...

Forte.
O meu aplauso. Mais um vez. Sempre.

gballand disse...

O seu texto tem força e poesia, sem falar da sua pertinência ! Gostei.

António disse...

Ás vezes estou tão cansado de mulheres que se portam como mulheres, sépticas, pre-menstruais, impertinentes, grávidas.
Não, não somos ainda, nem seremos, todos Mulheres. Não queremos.

blue disse...

pois é, António.
lá vamos tendo a capacidade de sermos "todos Americanos", mas Mulheres é que é mais difícil.
e, que diabo, de facto merecemos isso, sempre que deixamos de ser simpáticas, servis, magras, objecto de enamoramento, tornam-se visíveis os nossos defeitos: sépticas, pré-menstruais, impertinentes, vejam só, que incómodo a impertinência, grávidas.

António disse...

Mas não somos todos Americanos, como não somos todos Negros e, certamente que não todos Mulheres.
Somos homens, também nós simpáticos, servis, magros, por obrigação. Ojecto de enamoramento, também. Em pé de igualdade.
Pré-menstruais não, que incómodo. Menos ainda grávidos, que impertinência. Até quando?

Laura disse...

Fantástico, como sempre...

Anónimo disse...

levei a ft. as palavras não. são belas e únicas. demais.


mas só publicarei a ft. se me autorizar.



beijo.


imf.

blue disse...

sabes, António, concordo contigo excepto numa questão essencial:

é que ainda não estamos em pé de igualdade.

mesmo aqui, nos lugares mais "civilizados" nunca partimos em pé de igualdade.

talvez no amor, apenas.

mas não no trabalho, nos salários, na partilha de tarefas e responsabilidades, na política, nos órgãos que nos regem, etc., etc..

caminhamos no sentido da igualdade, estou profundamente certa, ainda que em tantos lugares do mundo isso seja uma pura miragem e quarenta anos talvez não sejam suficientes.

obrigada por comentares, por estares presente, obrigada a todos, de igual forma.

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