18.9.08

intertexto

corre um sopro pelas folhagens
levanta-nos a face a fralda dos casacos os gomos das saias
leva mãos às gravatas despenteia cabelos
estremecem galhardetes salamaleques rododendros por florir
e no Jardim o Arquitecto fala da Arte Pública
a audiência agita-se nas cadeiras
uma lua cansada debruça-se nos gonzos do portão
estende-se a luz negra pelo saibro
de terraço em terraço
até às Gimnospérmicas.

de terraço em terraço
se o Armagedão chegar
poderei
contentar-me com o esquecimento
e como a figueira cobrir os arenitos também eles cansados
esperar que o ácido e a luz não corroam papéis impressos
encadernações manuscritos
os bancos de sementes e a valiosa Arte Pública
que não apodreçam nos bunkers nos jardins privativos de betão armado
nos arquivos mortos cercados por terreiros de armas estéreis
onde nem para as sombras se reconhecerá abrigo.

que sabemos nós do Armagedão
perdidos que estamos pela banca pelos seguros
presos por impressões digitais registos dentários
pelas íris de todas as câmaras do nosso conforto e segurança
no leasing do carro nas vernissages na flutuação do preço do barril de Brent
aspirando à sustentabilidade de todos os desejos
à longevidade prometida ao cálice envenenado
à redenção

nas praias de Gaza nas cordilheiras do Cáucaso do Hindukush
nas margens do Tigre e do Eufrates
para lá das lamas do Nilo
que sabemos da peste branca
da fome
dos que se refugiam no deserto

da imunodeficiência adquirida
por tantos outros homens por tantas outras mulheres por tantos outros lugares
que sabemos nós do Armagedão?

6 comentários:

Scarlata disse...

nao sabemos nada...

CNS disse...

Não queremos saber nada. Nem à sombra das Gimnospérmicas...

hfm disse...

Gostei deste questionar poética. À tua pergunta respondeirei nada e, contudo, sinto culpa.

Mar Arável disse...

Sabemos que Armagedão

está aqui ao lado

esquecida

e também nós dos desertos

povoados

PiresF disse...

Nada, de facto, mas a crer na Bíblia, destruirá apenas a iniquidade.
Entretanto, continuaremos na rota do “triunfo dos porcos”.

Excelente o seu blog, vim pelo link da Isabel no Wadi Rum.

Um abraço.

Anónimo disse...

parabéns ao filho e aos pais.

beijos

marisa

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