21.7.08

falas-me do desassossego como se a grafia das suas artérias pudesse ligar-nos
finjo que não te ouço
como se a indolência da canícula pudesse desarticular-se 
do som da água no rego de pedra
da frescura do tijolo burro das almofadas de linho grosso cheias de palha
dos escaravelhos vermelhos que sacudo da cadeira onde me sento
enquanto sardaniscas percorrem a cal que se esboroa nos muros
lá fora arde o asfalto consomem-se homens bosques mato palavras
não é hora de te falar da mulher que disse 
ser a procriação o principal papel da família
apaziguando os que a escolheram para a desejada liderança
servindo a misogenia da oposição que acorreu a falar da 'senhora'
estou cansada de mulheres como esta estou farta de homens assim
continuo em silêncio não ouço os tiros no bairro da fonte o panfleto da estação
finjo que ensurdeço que não sei de que matéria se faz a cidade
há descontos no hipermercado crédito na loja de electrodomésticos
deputados no parlamento saldos na zara
arrecadas feiras
arraiais concertos festivais e tu

falas-me do desassossego como se a grafia das suas artérias pudesse ligar-nos
como se a indolência da canícula pudesse desarticular-se 
do som da água no rego de pedra
da frescura do tijolo burro das almofadas de linho grosso cheias de palha
falas-me do desassossego do plasma
meus são os olhos que se desviam para os teus
encosto a cabeça no teu peito e por momentos
nele ouço apenas grilos e cigarras.

7 comentários:

nd disse...

Desculpe a insistência, mas não consigo calar-me, face à sua poesia afirmativa, à sua linguagem rica, só aparentemente caótica, de surpresas, escaravelhos vermelhos, consomem-se homens, como estas rimas inusitadas, quem sabe se subjectivamente casuais (ao poema não interessa o modo), e que dão mais força ao que vai discorrendo. A sua poesia é de imagens que pensam e a minha descoberta este ano na blogosfera.

Scarlata disse...

cansaço... esse cansaço consuma-me.
Muito bom.

CNS disse...

Leio. Leio-te. A tua poesia é forte. Imagens que se gravam. Gosto do peso do cansaço que se arrasta no verso. Da luz sempre presente. Do mundo que permanece em todos os cantos das tuas palavras.

bj

António disse...

Bolas, ausentamo-nos uns dias e é a Revolução!
Havia indícios, não perceptíveis de imediato, em parte pelo embotamento que me atingia nos momentos que precediam a viagem. O desenho, a autorização para publicar...
Mas agora, completamente desperto,findo o terror, surpreende-me o tom de libelo. Político. Directo. Com nomes, não nomeados.
Uma nova fase?
Estimulante.

isabel mendes ferreira disse...

em sossego. no piano.



beijo.

CARMP disse...

Hoje não resisto, querida amiga.
A sua poesia, vinda de dentro (do universo, do todo?) expandindo-se (!) englobou a parte, a partícula planeta Terra a que chamamos “mundo”. Englobou-o todo: o natural, o social, o económico, o político…
Aos olhos de quem, como eu, não faz um verso, ela cresceu.
Haja música.

Anónimo disse...

regresso e de novo fico parada muito tempo perante as tuas palavras. elas são fortes, belas e encobrem... leio e releio e vou descobrindo tanta coisa. os teus poemas obrigam-nos a "entrar" neles, é esta a sensação que tenho. escreves muito bem, claúdia!
beijo
marisa

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