18.11.06

estou aqui a escrever poemas para ti que não existes em mim.
poemas falsamente angulosos como o meu corpo que não o é
e talvez assim o teu rosto me vislumbre
nesta volta e retorno a um desejo tão inesperado quão obsessivo:
como gostava de percorrer o teu corpo (esse sim anguloso, quase oblíquo)
com os meus dedos magros,
como quem desenha uma rota em busca de um instantâneo,
cativar-te na ponta desse olhar táctil.
ou então, deambular sobre os teus membros de boca vagarosamente entreaberta,
de voz silenciosa e respiração quase suspensa
à procura do sinal exacto de onde enfim um beijo pudesse roubar.

mas nada do que eu sei me é permitido.
para ti que não existes em mim,
todas as palavras sôfregas de ti que aqui abandono
são fábulas.
como selvas de cidades distantes arrastadas por plantas traiçoeiras que, displicentemente,
nos armadilham na corrente destes dias de outono
em que eu não posso encontrar-te.

assim, das horas velhas e dos olhares cansados, vai sobrar esse amor sem forma,
pleno de imagens,
e eu, por estes lugares sentada numa escadaria de pedra branca, sempre só,
vou desventrando esse céu negro e plano em torno de estrelas cadentes,
quem sabe se vindas do teu olhar.
para ti vestir-me-ei de organzas de seda fugaz e,
como numa velha estória de amor, por ti esperarei.
por ti ou por um qualquer outro que arraste um olhar irresistível
que arrebatarei erguendo os olhos muito devagar (como num filme)
para que sorvas de um só trago todo o desejo que soube guardar.

aqui, nestas escadarias brancas, vivo o desepero de não saber esperar.

4 comentários:

blue disse...

escrito em 1992.

marisa disse...

um poema de amor belíssimo. gosto mesmo muito das tuas palavras, da forma com as combinas, da ligação dos elementos a que recorres. são verdadeiros poemas. mais uma vez obrigada por os compartilhares.
beijos

blue disse...

marisa, obrigada, mais uma vez pela tua presença crítica. é importante para mim. beijo.

laura disse...

e eu acrecento ainda, as tuas palavras têm 1000 imagens.
obrigada.

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