18.1.07





a luz, hoje de manhã.


o rapaz que lia mrs. dalloway
durante o regresso a casa

17.1.07





(coimbra, janeiro 2006)

eis que hoje serenaram as palavras
devolvidas ao claro-escuro
desdobradas a preto e branco
pelos movimentos de um cenário reflectido na nossa memória,
local de estruturas devastadas,
corrompidas,
perdidas pelos amores de outras estórias.

as imagens,
burgos expurgados de vozes inauditas,
perpretam assim o eco do nosso olhar:

intenso como um só corpo recortado na minha pele,

forte como a dor de um único desejo,

destacando de todos os sentidos
apenas um sentimento ou tão somente um gesto,
revelando ausências,

falando, surdas,
de todas as mortes.


(coimbra, janeiro de 2007)

hoje, as imagens são tangenciais às palavras.

southern trees bear strange fruit ,
Blood on the leaves and blood at the root,
Black bodies swinging in the southern breeze,
Strange fruit hanging from the poplar trees.
Pastoral scene of the gallant south,

The bulging eyes and the twisted mouth,
Scent of magnolias, sweet and fresh,
Then the sudden smell of burning flesh.
Here is fruit for the crows to pluck,

For the rain to gather, for the wind to suck,
For the sun to rot, for the trees to drop,
Here is a strange and bitter crop.

(os estranhos frutos da ignomínia)

16.1.07


há uns dias, uma mulher espancou uma criança num centro comercial.
as poucas testemunhas não conseguiram identificá-la para a denunciar
e, ao ser interrompida, a mulher fugiu.
das muitas câmaras hoje dispostas por todo o lado
será que nenhuma registou o evento?
e, se sim, será que o centro comercial denunciou a situação à polícia?


(hibisco: género de plantas malváceas a que pertence a rosa-da-china)

para rosaarosa


(c) pedro morais

12.1.07

é quando me debruço sobre a tua pele clara
que o meu corpo curva e desespera
ao deparar com a febril tristeza
que dos teus olhos os meus colhem
como gestos à tona de um abismo.

(quisera que nenhum outro corpo de mim te arrancasse)

e, no entanto, só sei como imaginar
a tua pele à sombra dos meus cabelos,
breve horizonte de manhãs por luz e ventos transtornadas.
e se a tua boca, de paixão envenenada,
pudesse morrer sobre a minha boca
e os teus gestos, como caules, no meu corpo entrelaçados,
ah como seriam os dias desse outro tempo!

8.1.07



LX

déja vu


(c) pedro morais, 1 de janeiro de 1995

e depois das chuvas

com o verão,
o teu olhar afundou-se no negativo das imagens que já não lembro,
deixando-me só perante os sonhos ausentes da tua presença.
o vazio é a palavra que te consigo atribuir
por entre a curva que o meu corpo desenha
buscando um só gesto que valesse a pena cativar.

e depois das chuvas
vieram finalmente os dias de um outono forte.
foi a vez de os meus olhos se cobrirem de outras águas
precipitadas desses outros dias de há um tempo atrás.
como se esses dias fossem todos hoje,
os cheiros regressaram na revoada das folhas amarelecidas dos plátanos,
ébrios de névoas frescas
pelo ressoar dos rios e da cor vermelha das terras encharcadas.
por tais vestígios encantada,
a minha alma debruça-se nos rastos das tuas palavras,
transbordando pelas noites mais longas de medo
os equívocos destes cenários que me obrigam a recordar-te.
desses obscuros rasgos de uma memória subconsciente
que alguns sinais conseguem despertar,
fica tão somente o odor do reencontro
com tudo o que apenas se foi capaz de sonhar.

revejo-me então neste corpo pela morte embrutecido,
como se por tal destino
de um só olhar me embriagasse rudemente.
olhar capturado na claridade fotográfica de um relento,
cravado na pele transparente:

presságio da dor ainda inexistente.





coimbra, sé-velha, 6 de janeiro de 2007
(c) pedro morais

fotografias feitas em surdina

sentei-te no meu colo onde te aninhaste, outra vez pequenina.

sombras na arcaria em contraponto dão-nos cascatas de harmonias
caídas como a luz perdida dos petardos de ano novo e nós escutamos

caules ávidos
os olhos translúcidos como taças
corolas de fragor antigo nas paredes, flores de talha
voluptuosas e sombrias sobre o vidrado da geometria moçárabe
assinalando altares, o verso da porta de pedra imaculada
indicando o poente

e eu abracei-te no meu colo, outra vez pequenina
e foi lá que nos embalei por tonalidades misteriosas
cantos masculinos sobre um perdido deus menino
como quem se embala num navio assolado por vagas obscuras

e imensas

as tuas mãos mergulhadas nas minhas,
feitas ouro, incenso e mirra
em dia de música, em dia de reis
onde a esperança é o lugar deste abraço tão apertado
a nossa pequena e luminosa história.

hoje não tocaram alaúde, violeta ou sanfona
a pedra era pedra sob a cerâmica
ou sob o oiro vegetal da talha
e o arcabouço da velha sé albergou vozes como cordas
olhares como caixas de som
ecos doutros tempos adormecidos.

7.1.07



(aguarela e tinta da china, 1992,
publicado na revista da Companhia de Dança de Lisboa)

eis-me face ao teu rosto claro:

o meu corpo quebrado como uma planta recentemente colhida.
a boca entreaberta, apavorada,
fugindo da tua pele,
perdendo-se nos teus cabelos,
quasi abandonada pelo teu cheiro embriagada,
enforcando-se no rasto do teu olhar,
para sempre encerrada nesse desejo de te beijar.

e os meus olhos,
em cujo destino busco o movimento irresistível:
as pálpebras cerradas como da noite se tratasse,
erguendo-as lentas e sossegadas,
deslumbrando um olhar como único dia,
para que nele a tua vida afogasses.

e os meus olhos venenosos,
buracos para que em mim te debruces,
fatais e sem outro destino
que não o de um tombo eterno e sem retorno.

e os meus olhos entristecidos.
e os meus olhos sós.
deles fugiste como se do diabo se tratasse.

5.1.07



(estudo, tinta da china e lápis, 1992)

fixa-se na vidraça o reflexo bamboleante das luminárias urbanas
vozes de giz partido enchem a carruagem do comboio
em que me adormeço
e, soturno, metálico, chega o almocreve dos desamores cíclicos a que me voto
indolente

(as mãos suam tintas de jornal
butterflies, sussurra-me o ventre)

e por instantes desassombrados julgo escutar
l'ascenceur pour l'échaffaud

(miles away from you, sussurra-me o vento)

porém, traz hoje dias como ardósias quebradas
onde baloiçam os estranhos frutos da ignomínia
rejubilam vermes com o temor dos homens renovado
sustentam-se trivialidades no bafo húmido das crónicas
trocam-se trunfos, medem-se armas
negoceiam-se tormentos assassinos.

(oculta-me a noite o ponto de fuga deixa-me o desalento)

fere-se na vidraça o reflexo decomposto do meu rosto
no regresso a casa
há horas em que estar feliz

é quase complacente ausência

3.1.07


(c) pedro tudela

o lugar para o afecto enraizado
e perene.



(c) pedro tudela

(sim, para sempre.)

1.1.07



um bom ano para todos os que por aqui vão passando
desconhecidos ou amigos

um bom ano também para os meus bloggers favoritos
antónio figueira, no cincodias
josé pimentel, no ma-shamba e no semestrada
luís januário e andré bonirre, n' anaturezadomal
pedro morais, no semdatamarcada
laura, no photomaton
rosi
(por onde andas tu?), no rosiblogue
margarete, no acknowledge (or whatever) thyself






sou como um assassino ao sol,
aqui, à tua espera:
condeno-te à morte mais eterna que encontrar em mim.

29.12.06





(pedro morais, dezembro 2006)
um dia gelado

28.12.06

soam guizos e campaínhas na sala desbotada
e os garotos riem da solicitude do rapaz que ampara o trajecto
cego da professora de música
afastando a massa de cabelos que afronta a face corada

enlevo táctil que varre sombras e trevas
páginas de solfejo soletrado beijo a beijo,
sussurros, galhofas,
vozes claras
alinhadas como vestidos de algodão floridos

crostas, cicatrizes
e nódoas negras como coroas de reis enfeitando magros joelhos


palmas, síncopes
o feltro vermelho do piano cativo pela luz escusa da tarde
percutindo o soalho com o eco das pautas arduamente ensaiadas

as pequenas canções mimadas.

e, no dia da festa, cabelos presos por fita de veludo
calções vincados, camisas brancas, vozes afinadas
lá no circulo de arte e recreio teimosamente encostado à velha praça

desfez-se o piano, vendeu-se a velha casa.

22.12.06


boas festas!



a festa de natal

21.12.06

foi sob as velhas árvores que, ao invés do tempo,
perdi a capacidade de olhar os teus olhos,
embrenhando-me, distraída e pressurosa,
no estalar da caruma e das folhas de carvalho,
ao ritmo dos passos vagos e serenos
pelo cheiro a musgo e alecrim das canções da minha infância,
imaginando palavras desenhadas
como redes de pássaros para te encontrar.

foi imersa no perfume de uma límpida bruma que te vi riscar
o derrube dos escolhos que dispersara pelas rotas escusas
que acedem ao meu coração
(e que julgara definitivos, seguros
e inexpugnáveis)
meticulosamente minados por essa afeição perene
que me retirou o poder de mentir,
da omissão deliberada e de,

para os teus olhos,

poder olhar.

(sinto que se aproxima o vento
que soprará dos meus lábios
as estórias dos amores risíveis)

este é o tempo do silêncio.

este é o tempo que preserva
o fim sem fim dos nossos dias.

12.12.06


(dezembro 2006)




(c) pedro morais

a grafia de uma viagem a trás-os-montes numa primavera apressada:

o quarto com lençóis acabados de passar a ferro,

a gastronomia suculenta e os bons amigos.

8.12.06


(lápis e aguarela, sobre papel fabriano, anos 80)

7.12.06

não sei como não te seduzir.

os teus olhos debruçam-se assim nos meus
que aparentam suportar firmemente o embate do teu olhar provocador.
o desafio está lançado nos meus lábios que arqueiam um sorriso traiçoeiro,
e tu coras face ao descaramento com que o meu olhar se descobre ao teu.
olhares esguios enquanto as minhas mãos, geladas,
se poisam sobre as pernas angulosas
que exibo como único rasto do meu corpo:
este cobre-se de vestes que encerram os defeitos que não poderás adivinhar.

minto: o meu rosto é a máscara de todas as imperfeições
e é nele que articulo formas de te encantar.
imagem virtual, é dele que nasce a poderosa ficção
que te arrasta pelo meu corpo encoberto
de que rasgas pedaços:
os ombros lisos, os cotovelos violentos,
o ventre encerrado,
as costas que o teu olhar sabe como arrepiar.

5.12.06

vai o regato cheio por luz de ouro onde se afunda a tarde,
varrem-se os desgostos e as ausências destemperadas

pelas encostas azuladas da serra adormecida
e, sobre a curva do penedio sibilante,
o corpo de ventos bravios
ensurdece os ruídos longínquos da cidade

vão as lamas pardacentas rego abaixo
cama de galhos secos, partidos
acendem-se poeiras como fogos-fátuos
sob a luz filtrada no fim do dia

(e ao anoitecer dizes baixinho)

ama-me de um amor indizível,
de uma luminosidade inesquecível
de um tempo impossível,
tu que no perfil ensombrado destas horas finais
te estendeste sobre o musgo verde e macio
para seres minha, para seres minha.

e quando a luz tomar as vidraças cativas lá pelo burgo
ao amanhecer
deixa-me, a mim que tinha as mãos vazias, embalar-nos na luz diligente
que nos aponta o regresso à casa que acabamos de reconhecer.

4.12.06





(penha, dezembro 2006)

amo-te sempre que esses olhos semicerrados correm as pálpebras
do verde que escondes.

adivinho-lhes um sonho, escarpado de segredos que misturam suavemente
a cor da terra do muceque
com as nervuras das conchas marinhas.
adivinho ainda alguns ramos violentos,
anseios de secura ao vento que de vez em quando agita o ar.

há dias, semanas,
que misturo essas cores que julgo tuas sobre papéis brancos,
à procura de arquitecturas que rasguem o terreno do teu olhar.
porém, nada me abandonas nos riscos que faço.

escapas-te sempre que as minhas mão saberiam como te encontrar.

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