15.10.07



a quem interesse:

o rosto assimétrico é comprido
a oval já em desalinho
a testa demasiado alta, franzida
o nariz grande e torto
os olhos de sobrancelhas desiguais
e olheiras que se afundam

em função do grau de intensidade
da inquietude desencontrada em que vivo.

14.10.07


(lápis sobre papel, 1996)

10.10.07




© F.

regresso na hora das empregadas da limpeza

dos serventes de trabalhos distantes
das enfermeiras, das balconistas
e, coberta por uma maquilhagem já poída, não distingo suores
humores fétidos, as roupas engelhadas das mulheres
as mãos sujas dos homens
enquanto o comboio atravessa, uma após outra sem paragem,
estações vazias para as quais não tem passageiros.
regresso na hora das horas exangues
mas tagarelam raparigas
calados os rostos deles contra a janela, eu escrevo
numa actividade lânguida mãos bordam panos de cozinha
toalhas de mesa de renda crescente
casaquinhos minúsculos para crianças ausentes
e o revisor contempla a linha que o devolverá a casa
e que avista pela porta entreaberta em cada estação vencida.
sabendo que me aguardas
no cais mal iluminado onde nos encontrámos, pergunto-me
se a carcassa desta máquina roufenha perder
o registo dos lugares que estruturam o seu percurso
e,
por uma outra escuridão fora,
continuar infame liberta desvairada?



4.10.07


© rosi (work in progress)

resguarda-se no reflexo da cidade sobre a montra do bar expresso
aquecendo as mãos na chávena escaldada enquanto
o rapaz desenha escamas de dinossáurio, centáureas azuis, açucenas, gramíneas

o plano onde se desfaz a bruma solar
o limite onde o amor do homem a sustém e contamina.

1.10.07


(c) rosi

há uma casa de janelas fechadas
um quintal de cascalho
roseiras, hortênsias, hibiscos e orquídeas selvagens
caem frutos putrefactos
numa noite de outono.

posso sempre sair por essa porta
diz o homem
posso sempre desejar-te como um fragmento
ao ver-te passar por entre a revoada de folhas de choupo que o vento levanta
imaginar-te aí como um fotão posso sempre desejar-te
riscada sobre os papéis onde escrevo, impaciente
posso sempre desejar-te repito
posso sentir a tua pele na minha boca, luminescente
a pele dos teus seios, da curva dos antebraços
antes do lugar que articula o meu desejo
o cotovelo onde te agarro quando me desconheço

posso
sempre
desejar-te muito


a mulher cruza os braços
entra na casa de
fôlego perdido, as janelas fechadas.
caem frutos putrefactos
numa noite de outono.


(aguarela sobre papel, 1989)

24.9.07


(aguarela sobre papel, sem data)

para o meu desamor um novo ângulo
um lugar abstracto de copa aberta
o sangue pisado
a cal viva

as palavras cegas do poema.

22.9.07



(aguarela sobre papel, anos 80)

21.9.07

(revisão por luís)

Sopras-me nos lábios
a sombra dos grifos

deixas-me a pele rasa
um corpo fóssil
na garganta do rio.

para F.

18.9.07

(revisão por at)

sopras dos meus lábios
a sombra do voo dos grifos
os veios das escarpas

deixas-me a pele rasa
um corpo fóssil
na garganta quebrada do rio.

17.9.07



finge que sopras dos meus lábios

a sombra do voo dos grifos
os veios das escarpas

e deixa-me a pele rasa
um corpo fóssil

na garganta quebrada do rio.

13.9.07

(detalhe, aguarela sobre papel)

12.9.07


© pedro morais, 2007


PAINT IT BLACK


o novo blog de pedro morais

11.9.07



(caneta sobre papel, setembro 2007)

tenho cinco pontos fortes a meu favor
a mulher enumera estendendo a mão
sussurrando

(crescem no meu colo crianças de amor desgarrado e desinquieto
mantenho limpa uma sala que é quarto que é leito que é corpo o teu e o meu
que é ventre que é mesa na casa mansa onde não há portas fechadas
onde danço descalça sobre vidros, reflexos e penas
o olhar a pele os seios as mãos o sexo ávidos da tua presença)

cinco pontos fortes
os pés feridos, a cintura amarrada
a ânsia desesperada o olhar desmedido
a liberdade desamparada
e todos os dias morro mais uma vez só
definho sob a tua influência

(it’s a wonderful life)

5.9.07

para o Pampam


(caneta e ecoline sobre papel, 1992)




mulheres outras.

2.9.07



(caneta sobre papel, setembro 2007)

encostada no teu ombro, respiro o odor da tua pele na minha mão
quando afastas sombras do meu rosto como quem desembacia uma vidraça
é quase noite
e a casa de quartos vazios escurece pouco a pouco
passada a hora dos pardais, caladas as cigarras
desligam-se os pulsos dos anseios, entrecruzam-se as artérias do silêncio

e vagueamos pelas divisões esperando ficar sózinhos
cada corpo e o seu vazio
deambulantes, sem saber o que fazer das palavras
o que fazer dos espaços demasiado ocupados
nas horas em que todos os lugares estão tão preenchidos
por tudo o que ainda falta fazer
e a inércia é uma rocha negra onde adormeço de olhos abertos
onde me colhe a madrugada dos corvos infectos
que me devoram a voz, que me arrancam o último olhar.

mas a tua pele cheira a lavanda
os teus dedos perseguem as sombras no meu rosto

e, num relance, sonho que sorrimos.


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