10.11.08


© filipe paes

9.11.08

8.11.08


a água corre pelas pálpebras pelas pontas do cabelo
curva na escápula nos seios no ventre nos joelhos
contorna as palmas dos pés liberta-me o semblante
sento-me no chão e penso
deveria praticar ioga
erguer-me como uma árvore assimétrica na torrente
de quando em quando o vento arrancar-me-ia uma ou outra ramada
talvez me cobrissem heras ou vinha virgem
não usaria de palavras não as escutaria.

agora que somos todos Americanos indubitavelmente mestiços
só nos falta sermos todos Mulheres
talvez daqui a quarenta anos possam os nossos filhos dizê-lo
pois que nessa matéria a cor da pele não revela diferença
ressalvo que quando falo de Mulheres não falo
daquelas que se portam como homens
e que nada tenho contra os Homens
estou é tão cansada destes tempos vagarosos
onde ainda é possível apedrejar raparigas velá-las como corvos
incendiar-lhes o sari pagar-lhes um salário inferior por igual trabalho
cansada dos parlamentos masculinos das escolas da misogenia
dos estrategas que nos vêem como enfeites para garantir respeito e votos
cansada da bem pensante esquerda da iluminada direita
de todos os que esperam que nos comportemos
com gravidade e circunspecção masculinas
sem histeria dizem condescendentes
as mulheres refilam choram têm síndrome pré-menstrual engravidam
aborrecimentos que perturbam o ideário da gestão asséptica inócua
e muito produtiva - uma meta em alta
estou cansada das mulheres que podendo não compactuar com tudo isto
preferem a tranquilidade dos direitos adquiridos
são melhores os tempos de hoje que os das suas avós e mães mas

só nos falta sermos todos Mulheres digo eu que sou impertinente
que não me calo.

às vezes quando se me escurece a alma penso
deveria praticar ioga
erguer-me como uma árvore assimétrica na torrente
de quando em quando o vento arrancar-me-ia uma ou outra ramada
talvez me cobrissem heras ou vinha virgem
os pássaros alimentar-se-iam de pequenos vermes e insectos
estranhos líquenes tomariam o meu torso

não usaria de palavras não as escutaria.


© rosi

7.11.08

de que se vive quando se cerram os olhos
de que se morre quando o desejo os fendilha
de que se sobrevive se me armo à prova de bala

e tu te despojas de fragmentos
nada mais do que a tua pele exposta
o deserto de sal cujo sopro nos queimará os lábios?

repito não sei de bálsamo que nos repare
nem de palavras vertebradas que sustenham os quatros palmos de uma passada
não há ponte nem passagem
não há estilhaço que nos cegue nem treva que nos ensurdeça
não nos é reservada a quietude.

5.11.08




Outro dia raro, inteiro e limpo.


Aconteceu.


Um passo em frente


Previsto há 40 anos


HIP HIP HURRA!!!


É impossível não me permitir também a audácia da esperança

2.11.08

espero lá fora o frio que me deixa a pele seca seca
os poros apertados
as unhas quebradiças
aguardo a baforada de vento que dissolverá a tua voz
na rua está escuro são horas de ir ao pão já não brilham estrelas
perguntas porque te deixas assim inerte inchada
porque não buscas agasalho
porque fazes tantas perguntas em silêncio respondo eu
lá terei de colocar os auscultadores para garantir a barreira de som
o filtro cinematográfico que a música traz às imagens propagadas na retina
às vezes na estrada o Wenders mas também
dead man do Jarmush na sala vazia do Teatro Académico
outras no mar que me ondula o cabelo
e la nave va
felliniana encosto a testa na vidraça da locomotiva busco o meu reflexo
vejo mulheres com cestos carteiras de napa ramos de flores
rapazes e raparigas abrindo os computadores portáteis
sou um corpo estranho
imagino-me vestida de xadrez parto para longe vou trabalhar
sorrio mas não falo nem sempre ouço
às vezes nada mais vejo que o movimento das colinas no écran de vidro
fico coberta de pó de folhas mortas agora que veio o frio
embaciada para gáudio das crianças
grafitam-me rebuçados flores mistérios impressões digitais
ajeitamo-nos nos bancos finjo que durmo às vezes
o sol atravessa-me os olhos quando me sento no contrasentido
a tagarelice das crianças também
corrijo o baton vermelho revejo matérias escolares
se estivesse mais frio e não houvesse tantos eucaliptos
poderia imaginar-me no Connecticut
mas isto é só porque acabei de rever Manhattan
porque noutras horas chove como só em terras de sua Magestade
noutras sei apenas como caminhar sobre argila.





(lápis, aguarela e tinta-da-china sobre papel, novembro 2008)

o silêncio, ainda.
eu, por aqui, sinto-me mais só.


ma-shamba

apenas + 1

olivesaria

um blog chamado blog

tubo de ensaio

paperback cell


tempo contado

1.11.08


(ecoline sobre papel, 1985)



hesito

aguardo que os dedos se movam pelo gume das palavras
que a escrita não se resguarde nos vazios da casa
a soleira da porta onde se deita o cão
o contraluz do envidraçado na saleta junto à cozinha
a cadeira de convés numa tarde longínqua
o arco do silêncio
um lugar nunca fugaz
nocturno.

26.10.08


© pedro morais, 1993

afinal o ensejo era apenas o do regresso à curva medular do jardim
ao fragmento que o tempo vazara de puerilidade
rever a estratigrafia da memória
a dialéctica entre a Arquitectura e o Lugar
o Pavilhão o Jardim a Casa a Porta
fixar reflexos grafitos o rumor das sombras
a temperatura da aragem.



© pedro morais

pavilhão carlos ramos, faculdade de arquitectura
universidade do porto, 18 outubro 2008

23.10.08

HOJE

00000000000000000000000000000000000'000convidado especial: Tiago Guillul

com textos de:

Alexandre Borges
Ana M. P. Antunes
António Ramos Pereira
Beatriz Hierro Lopes
Cláudia Santos Silva
Daniel Abrunheiro
David Teles Pereira
Diogo Vaz Pinto
Fernando Esteves Pinto
Hugo Roque
José Carlos Barros
Maria Sousa
Pedro Jordão
Rui Miguel Ribeiro
Sara F. Costa
Sérgio Lavos

pode ser adquirida aqui
ou nas seguintes livrarias:

Lisboa
Alexandria (Calçada do Combro)
Book House (Saldanha)
Bulhosa (Campo de Ourique)
Bulhosa (Entrecampos)
Ler Devagar (Bairro Alto)
Ler Devagar (Fábrica Braço de Prata)
Letra Livre (Calçada do Combro)
Portugal (Chiado)
Pó dos Livros (Avenida Marquês de Tomar)
Sá da Costa (Chiado)
Trama (Rato)

Porto
Maria vai com as outras (Rua do Almada)
Poetria (C. C. Galerias Lumière)

Montemor-o-Novo (centro histórico)
Fonte de Letras

21.10.08



© maria paes

as raparigas no comboio, quando olho para elas
quando as desenho no caderno onde me deixaram uma sereia.

13.10.08


outubro 2008, esferográfica sobre papel




esferográfica sobre papel, outubro 2008

11.10.08




com textos de:

Alexandre Borges
Ana M. P. Antunes
António Ramos Pereira
Beatriz Hierro Lopes
Cláudia Santos Silva
Daniel Abrunheiro
David Teles Pereira
Diogo Vaz Pinto
Fernando Esteves Pinto
Hugo Roque
José Carlos Barros
Maria Sousa
Pedro Jordão
Rui Miguel Ribeiro
Sara F. Costa
Sérgio Lavos

pode ser adquirida aqui
ou nas seguintes livrarias:

Lisboa

Alexandria (Calçada do Combro)

Book House (Saldanha)
Bulhosa (Campo de Ourique)
Ler Devagar (Bairro Alto)
Ler Devagar (Fábrica Braço de Prata)
Letra Livre (Calçada do Combro)
Portugal (Chiado)
Pó dos Livros (Avenida Marquês de Tomar)
Sá da Costa (Chiado)
Trama (Rato)

Porto
Maria vai com as outras (Rua do Almada)
Poetria (C. C. Galerias Lumière)

9.10.08



(esferográfica sobre papel, outubro 2008)

as mulheres, como as vejo, no comboio.

6.10.08

há no encalço da mão que me estendes a aridez da penumbra
uma qualquer porta por abrir
e como sem tempo para reserva ou espera
mais não me resta que devolver-te os meus olhos
como quem não tem outro desafio um velho hábito sabes
há no seu encalço o silêncio o corpo de um deserto.


© filipe paes, esferográica sobre papel, julho 2008

30.9.08

já tudo estará escrito sobre a luz no Rio de Ouro
sobre os socalcos as fracturas nas fragas veladas por fina argila
sobre as voltas nas fiadas de vinhedos
sobre o calar do ardor da tarde quando se sobe o rio
onde nos surpreendem barcaças locomotivas cegonhas negras patos e garças
onde crescem vagares afectos risadas
já tudo estará escrito e ainda assim escrevo reescrevo procuro as palavras
ele são moiras alheiras milhos carolos bagos de moscatel medronhos bravos
a quentura do pão que as mãos partem na mesa da velha cozinha
longe das casas que os Benefícios tornaram espúrias
dos caixilhos de PVC dos heliportos dos Audis dos Ferraris
já tudo se terá escrito
e ainda assim procuro as palavras certas para a manhã no planalto
um fragmento solar uma brisa de outono o respigo
de novo as risadas e os afectos que nos dão abrigo.

25.9.08

leva-me a terra seca que o vento desarruma no equinócio
sobrevoo os rumores das copas das árvores
em cujo amplexo me dissolvo e anseio
assim me amparo na vara da contracorrente
avanço pelos meandros do rio.


21.9.08

para F.


© pedro morais

...nascido no equinócio, no último dia de verão.

18.9.08

intertexto

corre um sopro pelas folhagens
levanta-nos a face a fralda dos casacos os gomos das saias
leva mãos às gravatas despenteia cabelos
estremecem galhardetes salamaleques rododendros por florir
e no Jardim o Arquitecto fala da Arte Pública
a audiência agita-se nas cadeiras
uma lua cansada debruça-se nos gonzos do portão
estende-se a luz negra pelo saibro
de terraço em terraço
até às Gimnospérmicas.

de terraço em terraço
se o Armagedão chegar
poderei
contentar-me com o esquecimento
e como a figueira cobrir os arenitos também eles cansados
esperar que o ácido e a luz não corroam papéis impressos
encadernações manuscritos
os bancos de sementes e a valiosa Arte Pública
que não apodreçam nos bunkers nos jardins privativos de betão armado
nos arquivos mortos cercados por terreiros de armas estéreis
onde nem para as sombras se reconhecerá abrigo.

que sabemos nós do Armagedão
perdidos que estamos pela banca pelos seguros
presos por impressões digitais registos dentários
pelas íris de todas as câmaras do nosso conforto e segurança
no leasing do carro nas vernissages na flutuação do preço do barril de Brent
aspirando à sustentabilidade de todos os desejos
à longevidade prometida ao cálice envenenado
à redenção

nas praias de Gaza nas cordilheiras do Cáucaso do Hindukush
nas margens do Tigre e do Eufrates
para lá das lamas do Nilo
que sabemos da peste branca
da fome
dos que se refugiam no deserto

da imunodeficiência adquirida
por tantos outros homens por tantas outras mulheres por tantos outros lugares
que sabemos nós do Armagedão?


© pedro morais

favaios, abril 2008

15.9.08

fazes-me falta sempre que pouso a cadeira de verga sobre a gravilha do vergel
assim como um espaço em branco um vazio
trago um vestido curto de estopa grossa cicatrizes nos joelhos
abraças-me devagar e eu penso
o que vêem os olhos quando não vêem
o que fazem as mãos quando presas pelos pulsos
hesito em designá-las
tu dizes são o delta do Nilo do Benares
o tomento das palavras
fazes-me falta fazes-me falta cantarolo
se passar os dedos no teu cabelo
se os passar muito devagar será que o sabes
será que o adivinhas?



7.9.08


na sala de leitura no depósito no papel manuscrito o que leio
no caixilho de betão nas vidraças de vidro martelado
o dia que a clarabóia filtra
um dia que se escreve outro que se desenha
uns outros que são o ocaso e

antes da pressa que nos faz partícula imaginária
dos sulcos onde cresce a giesta
lá onde me avistarás feliz metamórfica
os tornozelos arranhados por ramada de carrasco
os dedos pelos espinhos do silvado
o sangue da cor das bagas
a face manchada de sol
dirás

olha-me como se fosse
um só dia uma página um ocaso
antes da pressa do fluxo da luz negra da treva
olha-me como se fosse
um só dia
uma fogueira

um ocaso.

3.9.08








(tinta-da-china sobre papel, setembro 1992)

31.8.08



© filipe paes,
lápis sobre papel, agosto 2008

Charles Baudelaire (1821-1867)

29.8.08

de repente somes pela frincha do soalho
segues o percurso das centopeias e dos aranhiços as feromonas do formigueiro
deitas-te nesse espaço intermédio
nessa espécie de bacia geográfica do medo do sonho
entre o tecto do mundo e a treva
de repente
dizes há muito que não sabes da inocência de um segredo trocado
eu respondo há muito que cobri os antebraços as costas das mãos
a linha da nuca há muito que dela não sopras a sombra do cabelo
os poros eriçados
há muito que sofro de aspereza
tu sorris porque não recorro ao médico da praça
ao centro de saúde à ginecologista ao estomatologista à psiquiatra
se calhar ao dermatologista ao homeopata à bruxa estás tão pálida dizes
sofres de aspereza de olheiras escuras de celulite
quem sabe a corporación te atribui um crédito por cinco anos
um cardiologista um osteopata uma nutricionista um médico do trabalho
dizes há muito que não me beijas e a tua boca é
digo interrompo
quem sabe eu suma por uma frincha do soalho
e contorne as centopeias os aranhiços as térmitas o caruncho
e seja um pouco como a cera de abelhas
a pele se amacie os dedos toquem a erva que cresce no lameiro
o sol atravesse as poeiras no final da tarde
quem sabe tu ao meu lado
e eu consiga por fim adormecer quem sabe
porque não me beijas
quem sabe.

26.8.08

todas as manhãs nos bancos da locomotiva que agosto esvazia
todas as manhãs abandonadas à frequência atonal
ao silvo que estremece os canaviais

levantam-se bandos de rolas cintilam álamos nos barrancos que o rio alaga
todas as manhãs do mundo nessa meia-hora que circunscreve a treva
as poeiras o burgo o asfalto.

21.8.08




© cj

17.8.08

salvo palavras no écran de luz parda faço os backups do desamparo
no terreiro de pó no final do dia
na linha de ferro estrangulada de um dito inconsciente colectivo
circled by the circus sands
o Dylan em Berlim a película do Wenders
água azul numa tela de Hockney

somos brancos diz a mulher indiferente à borrasca
não seremos o ramo genético que sobreviveu na costa oriental
e subiu as margens do Eufrates
não seremos de Babel nem seremos Persas nem sequer Hindus
somos todos brancos repete quem ainda a escutará
que ninguém o faça aflijo-me grito que lhe sequem a língua e os seios
que as minhas mãos ardam em pragas que não haja abrigo
não sou desse jardim e nenhum réptil me perderá

estou sentada numa cadeira de verga coberta de areia
tenho os pés descalços
visto-me de giz o teu olhar é um quadro negro
um solavanco dizes-me é a ossatura da dor inquieta
também para ela não tenho abrigo murmuro
ainda assim mordes os meus lábios engoles as minhas palavras
como quem procura uma dose letal
sem anteparo não somos desse outro jardim
nenhum anjo nos salvará.

15.8.08

hoje, reconheço-me em palavras que encontro aqui.

12.8.08



© caneta sobre papel, 2008

10.8.08

intertexto


Lembrem-me as portas e as janelas abertas
os perfumes de que as raparigas guardam os nomes
a linha branca do amanhecer
atravessando os quartos
acordando o sexo os pulsos a voz
o suor nas ruas ninguém tem medo
dos fascistas nunca mais
ninguém tem medo da CIA do Carlucci
do cardeal Cerejeira do cónego Melo do general Spínola
no Rossio no Carmo ninguém tem medo

Quem tem casas vocábulos odes troncos
ramos braços searas está cego pela
trova quente agitando sobreiros e azinheiras
para os quartos as salas as persianas semicerradas
os sociais-fascistas o camarada Vasco
a praça do Giraldo no Toural
para o louva-a-deus no dorso do muro o silêncio
ou um grilo negro nas mãos
não vê quem lá dentro tem medo
quem tem?



obrigada, Luís.

6.8.08


© pedro morais

4.8.08

lembrem-me os quartos as salas as persianas semicerradas
o perfume dos aloendros dos cravos-da-índia da salva cor de sangue
a linha crepuscular das sombras

arrastadas pelo ar que atravessa os compartimentos
perfuram-me o esterno os brônquios o esófago a voz

o calor lá fora cá dentro quem tem medo
dos comunistas dos fascistas da cólera quem tem medo
da CIA do KGB dos cubanos dos maoístas
do cardeal Cerejeira do cónego Melo do general Spínola do camarada Vasco
na praça do Giraldo no Toural no Rossio no Carmo quem tem medo

quem tem
casas vocábulos odes troncos ramos braços searas
que me lembrem os quartos as salas as persianas semicerradas
a brisa quente agitando sobreiros e azinheiras

as trovas do Zeca do Chico do Aleixo
um louva-a-deus no dorso do muro o silêncio
ou um grilo negro nas mãos
quem tem medo hoje quem tem?



Morreu Alexander Soljenitsine.

hoje, as palavras do Luís dizem tudo.

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