9.10.08



(esferográfica sobre papel, outubro 2008)

as mulheres, como as vejo, no comboio.

6.10.08

há no encalço da mão que me estendes a aridez da penumbra
uma qualquer porta por abrir
e como sem tempo para reserva ou espera
mais não me resta que devolver-te os meus olhos
como quem não tem outro desafio um velho hábito sabes
há no seu encalço o silêncio o corpo de um deserto.


© filipe paes, esferográica sobre papel, julho 2008

30.9.08

já tudo estará escrito sobre a luz no Rio de Ouro
sobre os socalcos as fracturas nas fragas veladas por fina argila
sobre as voltas nas fiadas de vinhedos
sobre o calar do ardor da tarde quando se sobe o rio
onde nos surpreendem barcaças locomotivas cegonhas negras patos e garças
onde crescem vagares afectos risadas
já tudo estará escrito e ainda assim escrevo reescrevo procuro as palavras
ele são moiras alheiras milhos carolos bagos de moscatel medronhos bravos
a quentura do pão que as mãos partem na mesa da velha cozinha
longe das casas que os Benefícios tornaram espúrias
dos caixilhos de PVC dos heliportos dos Audis dos Ferraris
já tudo se terá escrito
e ainda assim procuro as palavras certas para a manhã no planalto
um fragmento solar uma brisa de outono o respigo
de novo as risadas e os afectos que nos dão abrigo.

25.9.08

leva-me a terra seca que o vento desarruma no equinócio
sobrevoo os rumores das copas das árvores
em cujo amplexo me dissolvo e anseio
assim me amparo na vara da contracorrente
avanço pelos meandros do rio.


21.9.08

para F.


© pedro morais

...nascido no equinócio, no último dia de verão.

18.9.08

intertexto

corre um sopro pelas folhagens
levanta-nos a face a fralda dos casacos os gomos das saias
leva mãos às gravatas despenteia cabelos
estremecem galhardetes salamaleques rododendros por florir
e no Jardim o Arquitecto fala da Arte Pública
a audiência agita-se nas cadeiras
uma lua cansada debruça-se nos gonzos do portão
estende-se a luz negra pelo saibro
de terraço em terraço
até às Gimnospérmicas.

de terraço em terraço
se o Armagedão chegar
poderei
contentar-me com o esquecimento
e como a figueira cobrir os arenitos também eles cansados
esperar que o ácido e a luz não corroam papéis impressos
encadernações manuscritos
os bancos de sementes e a valiosa Arte Pública
que não apodreçam nos bunkers nos jardins privativos de betão armado
nos arquivos mortos cercados por terreiros de armas estéreis
onde nem para as sombras se reconhecerá abrigo.

que sabemos nós do Armagedão
perdidos que estamos pela banca pelos seguros
presos por impressões digitais registos dentários
pelas íris de todas as câmaras do nosso conforto e segurança
no leasing do carro nas vernissages na flutuação do preço do barril de Brent
aspirando à sustentabilidade de todos os desejos
à longevidade prometida ao cálice envenenado
à redenção

nas praias de Gaza nas cordilheiras do Cáucaso do Hindukush
nas margens do Tigre e do Eufrates
para lá das lamas do Nilo
que sabemos da peste branca
da fome
dos que se refugiam no deserto

da imunodeficiência adquirida
por tantos outros homens por tantas outras mulheres por tantos outros lugares
que sabemos nós do Armagedão?


© pedro morais

favaios, abril 2008

15.9.08

fazes-me falta sempre que pouso a cadeira de verga sobre a gravilha do vergel
assim como um espaço em branco um vazio
trago um vestido curto de estopa grossa cicatrizes nos joelhos
abraças-me devagar e eu penso
o que vêem os olhos quando não vêem
o que fazem as mãos quando presas pelos pulsos
hesito em designá-las
tu dizes são o delta do Nilo do Benares
o tomento das palavras
fazes-me falta fazes-me falta cantarolo
se passar os dedos no teu cabelo
se os passar muito devagar será que o sabes
será que o adivinhas?



7.9.08


na sala de leitura no depósito no papel manuscrito o que leio
no caixilho de betão nas vidraças de vidro martelado
o dia que a clarabóia filtra
um dia que se escreve outro que se desenha
uns outros que são o ocaso e

antes da pressa que nos faz partícula imaginária
dos sulcos onde cresce a giesta
lá onde me avistarás feliz metamórfica
os tornozelos arranhados por ramada de carrasco
os dedos pelos espinhos do silvado
o sangue da cor das bagas
a face manchada de sol
dirás

olha-me como se fosse
um só dia uma página um ocaso
antes da pressa do fluxo da luz negra da treva
olha-me como se fosse
um só dia
uma fogueira

um ocaso.

3.9.08








(tinta-da-china sobre papel, setembro 1992)

31.8.08



© filipe paes,
lápis sobre papel, agosto 2008

Charles Baudelaire (1821-1867)

29.8.08

de repente somes pela frincha do soalho
segues o percurso das centopeias e dos aranhiços as feromonas do formigueiro
deitas-te nesse espaço intermédio
nessa espécie de bacia geográfica do medo do sonho
entre o tecto do mundo e a treva
de repente
dizes há muito que não sabes da inocência de um segredo trocado
eu respondo há muito que cobri os antebraços as costas das mãos
a linha da nuca há muito que dela não sopras a sombra do cabelo
os poros eriçados
há muito que sofro de aspereza
tu sorris porque não recorro ao médico da praça
ao centro de saúde à ginecologista ao estomatologista à psiquiatra
se calhar ao dermatologista ao homeopata à bruxa estás tão pálida dizes
sofres de aspereza de olheiras escuras de celulite
quem sabe a corporación te atribui um crédito por cinco anos
um cardiologista um osteopata uma nutricionista um médico do trabalho
dizes há muito que não me beijas e a tua boca é
digo interrompo
quem sabe eu suma por uma frincha do soalho
e contorne as centopeias os aranhiços as térmitas o caruncho
e seja um pouco como a cera de abelhas
a pele se amacie os dedos toquem a erva que cresce no lameiro
o sol atravesse as poeiras no final da tarde
quem sabe tu ao meu lado
e eu consiga por fim adormecer quem sabe
porque não me beijas
quem sabe.

26.8.08

todas as manhãs nos bancos da locomotiva que agosto esvazia
todas as manhãs abandonadas à frequência atonal
ao silvo que estremece os canaviais

levantam-se bandos de rolas cintilam álamos nos barrancos que o rio alaga
todas as manhãs do mundo nessa meia-hora que circunscreve a treva
as poeiras o burgo o asfalto.

21.8.08




© cj

17.8.08

salvo palavras no écran de luz parda faço os backups do desamparo
no terreiro de pó no final do dia
na linha de ferro estrangulada de um dito inconsciente colectivo
circled by the circus sands
o Dylan em Berlim a película do Wenders
água azul numa tela de Hockney

somos brancos diz a mulher indiferente à borrasca
não seremos o ramo genético que sobreviveu na costa oriental
e subiu as margens do Eufrates
não seremos de Babel nem seremos Persas nem sequer Hindus
somos todos brancos repete quem ainda a escutará
que ninguém o faça aflijo-me grito que lhe sequem a língua e os seios
que as minhas mãos ardam em pragas que não haja abrigo
não sou desse jardim e nenhum réptil me perderá

estou sentada numa cadeira de verga coberta de areia
tenho os pés descalços
visto-me de giz o teu olhar é um quadro negro
um solavanco dizes-me é a ossatura da dor inquieta
também para ela não tenho abrigo murmuro
ainda assim mordes os meus lábios engoles as minhas palavras
como quem procura uma dose letal
sem anteparo não somos desse outro jardim
nenhum anjo nos salvará.

15.8.08

hoje, reconheço-me em palavras que encontro aqui.

12.8.08



© caneta sobre papel, 2008

10.8.08

intertexto


Lembrem-me as portas e as janelas abertas
os perfumes de que as raparigas guardam os nomes
a linha branca do amanhecer
atravessando os quartos
acordando o sexo os pulsos a voz
o suor nas ruas ninguém tem medo
dos fascistas nunca mais
ninguém tem medo da CIA do Carlucci
do cardeal Cerejeira do cónego Melo do general Spínola
no Rossio no Carmo ninguém tem medo

Quem tem casas vocábulos odes troncos
ramos braços searas está cego pela
trova quente agitando sobreiros e azinheiras
para os quartos as salas as persianas semicerradas
os sociais-fascistas o camarada Vasco
a praça do Giraldo no Toural
para o louva-a-deus no dorso do muro o silêncio
ou um grilo negro nas mãos
não vê quem lá dentro tem medo
quem tem?



obrigada, Luís.

6.8.08


© pedro morais

4.8.08

lembrem-me os quartos as salas as persianas semicerradas
o perfume dos aloendros dos cravos-da-índia da salva cor de sangue
a linha crepuscular das sombras

arrastadas pelo ar que atravessa os compartimentos
perfuram-me o esterno os brônquios o esófago a voz

o calor lá fora cá dentro quem tem medo
dos comunistas dos fascistas da cólera quem tem medo
da CIA do KGB dos cubanos dos maoístas
do cardeal Cerejeira do cónego Melo do general Spínola do camarada Vasco
na praça do Giraldo no Toural no Rossio no Carmo quem tem medo

quem tem
casas vocábulos odes troncos ramos braços searas
que me lembrem os quartos as salas as persianas semicerradas
a brisa quente agitando sobreiros e azinheiras

as trovas do Zeca do Chico do Aleixo
um louva-a-deus no dorso do muro o silêncio
ou um grilo negro nas mãos
quem tem medo hoje quem tem?



Morreu Alexander Soljenitsine.

hoje, as palavras do Luís dizem tudo.

28.7.08


(lápis sobre papel, sem data)

22.7.08


© ana

21.7.08

falas-me do desassossego como se a grafia das suas artérias pudesse ligar-nos
finjo que não te ouço
como se a indolência da canícula pudesse desarticular-se 
do som da água no rego de pedra
da frescura do tijolo burro das almofadas de linho grosso cheias de palha
dos escaravelhos vermelhos que sacudo da cadeira onde me sento
enquanto sardaniscas percorrem a cal que se esboroa nos muros
lá fora arde o asfalto consomem-se homens bosques mato palavras
não é hora de te falar da mulher que disse 
ser a procriação o principal papel da família
apaziguando os que a escolheram para a desejada liderança
servindo a misogenia da oposição que acorreu a falar da 'senhora'
estou cansada de mulheres como esta estou farta de homens assim
continuo em silêncio não ouço os tiros no bairro da fonte o panfleto da estação
finjo que ensurdeço que não sei de que matéria se faz a cidade
há descontos no hipermercado crédito na loja de electrodomésticos
deputados no parlamento saldos na zara
arrecadas feiras
arraiais concertos festivais e tu

falas-me do desassossego como se a grafia das suas artérias pudesse ligar-nos
como se a indolência da canícula pudesse desarticular-se 
do som da água no rego de pedra
da frescura do tijolo burro das almofadas de linho grosso cheias de palha
falas-me do desassossego do plasma
meus são os olhos que se desviam para os teus
encosto a cabeça no teu peito e por momentos
nele ouço apenas grilos e cigarras.

20.7.08



(caneta sobre papel, julho 2008)


(caneta sobre papel, julho 2008)

16.7.08



(caneta sobre papel, julho 2008)

15.7.08

nota: de forma inconsciente, mas reconhecível após re-leitura,
o mote deste texto encontrava-se nas palavras do
Eduardo, aqui.

14.7.08

ligo o i-pod-shuffle apetece-me dizê-lo assim
é como se entrasse numa cápsula de silêncio
para sentir o coração aos solavancos
o peito desabotoado os sons pulsando nas artérias
uma brisa na sombra do estio um pinhal
perder-me nas dunas brancas varridas por nuvens
as tuas mãos levo-as à face
como o sargaço sabem a sal
a mar.

10.7.08


© DrGica

9.7.08

levantas-me o rosto estreitas-me os pulsos
o olhar demora-se no plano exterior da janela ao longe na rua acendem-se luzes
arrumo a cama o quarto as malas movimento-me como uma fissura
é difícil fazê-lo se me reténs a cintura para dizeres
que te lembro um crepúsculo de têmpera
terra de siena queimada azul da prússia rosa cal
tonalidades recorrentes dizes
o crayon khôl
os lábios vermelhos.

pela noite preferes a pele de giz onde segues a linha das clavículas
a curva dos ombros o arco do tórax o peso das nádegas
as artérias azuladas onde é possível medir o pulsar do coração.



(nota: de forma inconsciente, mas reconhecível após re-leitura,
o mote encontrava-se nas palavras do Eduardo, aqui)



26.6.08

19.6.08


"As relíquias (do latim reliquiae, “restos”), são os despojos materiais deixados por um santo ou uma personagem sagrada ao abandonar o mundo terreno; podem ser partes do seu corpo, objectos pessoais, ou objectos que, segundo os crentes, ele santificou pelo seu contacto. São preservados para efeitos de veneração no âmbito de uma religião, encontrando-se normalmente associados a uma lenda ou história religiosa.(...)" excerto do texto da exposição de Maria José Goulão

É com base neste texto que 24 ilustradores portugueses aceitaram o convite de participação na mostra de ilustração "Memorabilia", esta exposição é uma continuação do "Homem Selvagem" na Galeria da Cozinha da FBAUP em 2007 e da vontade da FBAUP e do Dep. de Design de divulgar a ilustração e os seus processos de actuação."

inauguração no dia 20 de junho (sexta-feira)
às 17:00 no Átrio da Reitoria da Universidade do Porto

a exposição estará patente entre os dias 20 de junho e dia 4 de julho
segunda a sexta das 10:00 - 19:00 e sábados das 10:00 às 14:00


organização:
Júlio Dolbeth
Maria José Goulão
Rui Vitorino Santos

18.6.08

caminhos da memória

um blogue que pretende dar voz a diferentes formas de lembrar, de evocar e de interpretar o passado, recorrendo a leituras contemporâneas da história e da memória

Redacção:
Diana Andringa, Irene Pimentel, Joana Lopes, Maria Manuela Cruzeiro, Miguel Cardina, Raimundo Narciso e Rui Bebiano

Colaboradores:

José Luís Saldanha Sanches, José Medeiros Ferreira, José Vera Jardim, Nuno Brederode Santos

16.6.08

os detalhes repetem-se na deriva da caneta
no papel de algodão na tinta por aplicar
no que ainda não escrevi
irregular sou irregular
geométrica noutra hora curvilínea
nada sei de mim menos sei ainda dos detalhes
explícitos que te acompanham a que horas despertas
se ferve a água para o chá inglês se o teu cabelo cai sobre os olhos
se tombas as mãos na tina de ferro irregulares as tuas mãos
sob a água nada sei de ti nesse vagar já nada sei de ti
nada de mim assim tão irregular.







15.6.08

detalhes pontos de fuga início de uma outra história
é quase verão e já sinto a água da albufeira salgar o meu rosto
o funcho-marítimo cobrir o amplexo da falésia
piteiras-bravas núvens brancas darão corpo ao vento leste à nudez
às sombras
sobre a areia onde me estendo

é quase verão.



(lápis sobre papel, detalhes)

10.6.08

sabes quando me sento e tu não me olhas quando me desalinho
calço sandálias negras depois de polida a pele
empoeiradas as maçãs do rosto desenhados os lábios de carmim
sabes poderia ser um arrufo um arremedo inútl
mas é apenas um recuo ergo-me como se não carregasse outro peso
que o da minha vontade que outro peso não é
o de um lugar ermo onde às vezes as tuas mãos me resgatam
quando me enlaças
um olhar semicerrado como se fora um dia de verão
na falésia onde o vento nos empurra um contra o outro
e é inevitável que me beijes
a pele seca dos dedos dos lábios das pálpebras
às vezes um dia de verão um desalinho.



5.6.08

dia 7 de Junho de 2008


apresentação de
ISABEL LOPES DELGADO
.
músicos convidados
Xavier Llonch
João Vaz Pinto

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